Ken Russell

Alex Verney-Elliott, filho do cineasta Ken Russell, ao anunciar a morte do pai, afirmou que ele morreu sorrindo, em seu leito de hospital, após uma série de derrames.

O fato de Russell ter morrido com este sereno rosto sorridente é algo para se pensar. Ora, Ken Russell é o criador de Mulheres Apaixonadas (Women in Love, 1969),  The Devils (Idem, 1971) e Savage Messiah (Idem, 1972). O que esses filmes têm em comum? A agressividade, a fúria, a estética altamente barroca, rebuscada; tudo isso servindo em prol de uma narrativa amalucada, rebelde e – sempre, sempre – polemista. E não é exagero dizer que, por vezes, todo o cinema de Russell parece ser priorizado inteiramente na polêmica e no excesso, e a narrativa fica em segundo plano.

Talvez o destino que um dos cineastas mais importantes do cinema britânico amargou venha exatamente desta rebeldia indomável, desta fúria descontrolada, do choque sempre certo – a soma de todos estes valores da sua filmografia tornou-se maior que seu criador, e de uma certa forma a personalidade e a estética das suas obras virou o próprio Ken Russell: O cineasta passou a ser conhecido como “O Apóstolo do Excesso”, “O Velho Furioso do Cinema”, “Fellini do Norte”.

Entretanto, rudes ou não, as alcunhas não são falsas, tampouco mentirosas. Fez por merecer, este filhotinho do caos.

Talvez a origem do caos e da maluquice descontrolada, mas sempre elegante, do seu cinema venha do berço de Henry Kenneth Alfred Russell, nascido em Southampton, Inglaterra, no dia três de julho de mil novecentos e vinte e sete. O pai de Ken, um senhor chamado Henry, era um sapateiro que também trabalhava como caixeiro viajante e sempre que possível estava bem longe de casa, uma vez que odiava a família que concebera. A mãe, Ethel Russell, era louca e passava as tardes no cinema com o filho – onde entrou em contato com a educação de Fritz Lang, uma de suas referências assumidas. De fato, toda a educação de Ken Russell (seja artística ou escolar) foi longe de casa: Estudou em colégios privados e internos, onde desde já aspirava uma carreira na área das artes. Tentou ser dançarino, mas logo deve de aceitar o fato que seu físico não lhe permitira tal profissão. Ao invés disso, ingressou na Marinha Mercante Britânica (em mil novecentos e quarenta e cinco), onde serviu no Pacífico. Seu capitão era um homem histérico e louco (mais uma vez a falta de lógica entra em contato com sua vida), que tinha um medo patológico de ser atacado por submarinos japoneses – ainda que a Segunda Guerra Mundial já tivesse acabado. Resultado: Russell teve de ficar horas e horas de alerta sob o sol do Pacífico, o que lhe acarretou um colapso nervoso. Logo em seguida resolveu entrar na Força Aérea Real (a RAF), onde serviu de quarenta e seis a quarenta e nove.

Ken Russell reportou as "Teddy girls" numa série de fotografias no início da década de 50. (Foto: Ken Russell)

Ao retornar do serviço militar, Russell voltou-se para a fotografia, trabalhando em uma série de fotodocumentários sobre as “Teddy girls,” subgênero da subcultura “Teddy,” que encantou os jovens ingleses após a Segunda Guerra, em que todos se vestiam de uma maneira mais ou menos arcaica, utilizando roupas do período do rei Eduardo VII. A série de fotos foi publicada no periódico Picture Post. A fotografia ao lado faz parte desta coleção.

Mas aí Ken Russell se apaixonou por outra câmera: A de Cinema. Após fazer um número de curtas-metragens amadores baseado no movimento Cinema Livre, o futuro cineasta chegou a BBC, onde passou a escrever, produzir e dirigir vários filmes biográficos sobre músicos. E foi o sucesso de Elgar, seu segundo trabalho, que lhe abriu as portas para o Cinema. Todavia, seu primeiro filme, French Dressing (Idem, 1963), uma comédia sobre um resort à beira-mar na Inglaterra. Não foi nada rentável, e o cineasta se viu de volta aos filmes de música na BBC e logo começou a polemizar: Comprou briga Hul Wheldon, seu produtor, por querer usar atores reais em uma simples série de documentários sobre música e chamou resolveu contar o envolvimento de Richard Strauss com o nazismo em A Dança dos Sete Véus (The Dance of the Seven Veils, 1970) – o que retirou o filme de circulação até a expiração dos direitos autorais das músicas utilizadas no filme, algo que acontecerá em dois mil e dezenove.

Mas nesta altura, Ken Russell já era um sujeito famoso. Apenas um ano antes, em sessenta e nove, dirigira a primeira de suas obras-primas: Mulheres Apaixonadas, estrelando Oliver Reed, Alan Bates, Glenda Jackson e Jennie Linden. Um sucesso de bilheteria, crítica e, de quebra, foi indicado a três Oscar (Melhor Fotografia, Melhor Atriz [Glenda Jackson, que ganhou] e Melhor Direção). Mas talvez Mulheres Apaixonadas seja mais lembrado mesmo pela cena de wrestling que Reed e Bates travaram totalmente nus.  Falando nisso, reza a lenda que Russell queria cortar essa cena, mas foi obrigado a colocar na montagem final porque Oliver Reed estava lhe estrangulando enquanto tentava mudá-lo de idéia. Continuar lendo

Um pouquinho sobre Kar Wai Wong

Enquanto Kar Wai Wong continuar sendo Kar Wai Wong, nunca o respeitarei. Enquanto ele prezar forma mais que o conteúdo é difícil eu o levar a sério. Quem leu meu texto para Cinzas do Passado, no antigo blog, sabe disso. Conteúdo o oriental tem, falta apenas alguém que ponha os pés do homem no chão.

Mas só que esse teaser de The Grandmasters, novo filme do homem que fez o açucarado Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, 2007), jogou uma nova luz no que eu entendo por Kar Wai Wong (o pouco que eu entendo, de fato). Sempre o considerei um filho da puta charlatão que queria mais se masturbar enquanto via seus enquadramentos nada convencionais misturados ao vórtice de luz e cores que pintavam seus filmes. No momento em que me deparei com uma paleta fria e monocromática nesses dois minutos de preview, pensei comigo: “Será que ele consegue se controlar?” A luta é elegante, sem dúvidas. Ao menos no trailer o homem se desviou pouco do assunto principal – a luta, óbvio. Wai aparentemente percebeu que o importante é contar a história, e não mostrar que existe de fato um diretor no filme – pra isso existem os créditos, ora!

Mas estou voando alto demais, é só um trailer. Ainda posso me decepcionar amargamente com o menino, como anda acontecendo. Qualquer hora dessas posto um texto sobre Felizes Juntos e me aprofundo mais.

Dá uma olhada no que estou dizendo assistindo o trailer aí:

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The Fucking Short Version

Cassino é um jovem clássico, disso não há dúvidas. Está repleto de cenas deliciosas – que podem ser encontradas às pencas nos You Tubes e Vimeos da vida.

Mas ninguém fez nada parecido com o que o usuário Bunnie Lebowski da vida fez. O cara simplesmente pegou todos os “Fucks” que existem nas quase três horas de projeção do filme do Scorsese e compilou tudo. O resultado? Quatro minutos e dezoito segundos de vídeo. Uma sinfonia de “Fucks, fuckings e fuckeds” para os nossos ouvidos. Deliciosamente proibido para menores.

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Je Vous Salue, Sarajevo

Mestre do sono, do chato, do pretensioso, do diferentão. Se eu quiser falar mal dele sem partir pra porradaria, é assim que eu vou definir Godard. O mais brochante dos cineastas, o mais pretensioso. Ele é um dos motivos que me fazem achar que a Nouvelle Vague não passa de um buraco preenchido com água no cinema francês – e alguns, mas apenas alguns, filmes de François Truffaut funcionam como ilhotas, tão distantes uma das outras, nesse puta oceano (para citar um exemplo, coloco o tocante O Garoto Selvagem na roda). E ainda assim, mesmo em seus piores exemplares, Truffaut conseguia ensaiar uma lucidez que Godard nunca conseguiu ter, mesmo em seus sonhos mais selvagens. Eu sei, os dois tinham cinemas distintos. Godard era abstrato, incendiário. Fazia Cinema pra quebrar com os alicerces constituídos. Ora, Béla Tarr, cineasta menos febril que Godard, conseguiu fazer – em menos filmes – uma diferença muito, muito maior.

E eis que aqui está o curta Je Vous Salue, Sarajevo, do tal mestre francês. A partir de uma série de planos-detalhe de uma única fotografia, Godard monta um painel da Europa Cultural (realmente interessante, devo admitir) e – na maneira mais radical e generalizante que encontrou – dividiu tudo em dois. A ânsia de Godard de fazer uma obra seminal sobre essa Europa Cultural tomando como exemplo Sarajevo é risível. O curta parece ter sido montado por um adolescente estudante de Cinema no MovieMaker. O curta vem depois do pulo: Continuar lendo