Zorba, o Grego (Michael Cacoyannis, 1964)

5/5

A gente sabe que pessoas cruzam as nossas vidas o tempo inteiro. Algumas delas ficam; outras delas, não. Algumas marcam para melhor. Outras, para pior. Outras não marcam de forma alguma. Sorte daquelas que tem a bênção de encontrar um Zorba.

Zorba, o Grego, esta obra-prima de Michael Cacoyannis (que, infelizmente, será marcado para a eternidade apenas por este filme, ainda que sua carreira se expanda em no mínimo outras três obras relevantes — e que ainda não vi, mea culpa) é mais que um filme. É uma experiência de vida — e estou certo de que o livro que deu origem a ela, escrito pelo mesmo Nikos Kazantzakis de A Última Tentação de Cristo, é uma experiência literária impactante e fascinante. Zorba é um daqueles filmes que — ao exemplo de A Árvore da Vida — mudam sua forma de percepção do mundo. Não é fascinante quando um filme eleva sua forma de ser de uma maneira instantânea?

Durando cerca de 140 minutos, o filme acompanha a temporada de Basil (Alan Bates), um inglês da alta classe-média, numa pequena cidade de Creta, na Grécia. Ao seu lado, Alexis Zorba (Anthony Quinn). Zorba é mais que um escudeiro (longe disso, para ser sincero), ele é o único amigo de Basil e também será o responsável o levará numa magnífica jornada de autoconhecimento e… enfim. Viver a vida.

Acontece que Zorba, o livro, é um clássico; e adaptar esses clássicos do pedestal da literatura é uma tarefa difícil. Grandes livros (e põe-se aí O Processo, Dom Quixote, Dom Casmurro, etc.) são livros cheios de nuanças, de sensibilidade, de momentos que só funcionam, infelizmente, no papel. Filmes são realistas — você vê imagens, você sabe o que está acontecendo. Mesmo, digamos, numa sequência surrealista, sempre há algo de concreto para você se agarrar.

Felizmente, Michael Cacoyannis era um diretor com a sensibilidade para preservar não apenas o intelecto, a filosofia e a visão de mundo de Kazantzakis (que, claro, é partilhada por ele) sem sobrecarregar o filme de teatralidade. O problema da adaptação de textos de autores com pulso firme é que é dificílimo conseguir balancear os dilemas dos personagens sem tornar o filme óbvio — ou pior, cansativo. Cinema é uma mídia visual, e não pode se entregar a longos monólogos explicando ao espectador não apenas o que se vê, mas o que se pensa. Continuar lendo

Ken Russell

Alex Verney-Elliott, filho do cineasta Ken Russell, ao anunciar a morte do pai, afirmou que ele morreu sorrindo, em seu leito de hospital, após uma série de derrames.

O fato de Russell ter morrido com este sereno rosto sorridente é algo para se pensar. Ora, Ken Russell é o criador de Mulheres Apaixonadas (Women in Love, 1969),  The Devils (Idem, 1971) e Savage Messiah (Idem, 1972). O que esses filmes têm em comum? A agressividade, a fúria, a estética altamente barroca, rebuscada; tudo isso servindo em prol de uma narrativa amalucada, rebelde e – sempre, sempre – polemista. E não é exagero dizer que, por vezes, todo o cinema de Russell parece ser priorizado inteiramente na polêmica e no excesso, e a narrativa fica em segundo plano.

Talvez o destino que um dos cineastas mais importantes do cinema britânico amargou venha exatamente desta rebeldia indomável, desta fúria descontrolada, do choque sempre certo – a soma de todos estes valores da sua filmografia tornou-se maior que seu criador, e de uma certa forma a personalidade e a estética das suas obras virou o próprio Ken Russell: O cineasta passou a ser conhecido como “O Apóstolo do Excesso”, “O Velho Furioso do Cinema”, “Fellini do Norte”.

Entretanto, rudes ou não, as alcunhas não são falsas, tampouco mentirosas. Fez por merecer, este filhotinho do caos.

Talvez a origem do caos e da maluquice descontrolada, mas sempre elegante, do seu cinema venha do berço de Henry Kenneth Alfred Russell, nascido em Southampton, Inglaterra, no dia três de julho de mil novecentos e vinte e sete. O pai de Ken, um senhor chamado Henry, era um sapateiro que também trabalhava como caixeiro viajante e sempre que possível estava bem longe de casa, uma vez que odiava a família que concebera. A mãe, Ethel Russell, era louca e passava as tardes no cinema com o filho – onde entrou em contato com a educação de Fritz Lang, uma de suas referências assumidas. De fato, toda a educação de Ken Russell (seja artística ou escolar) foi longe de casa: Estudou em colégios privados e internos, onde desde já aspirava uma carreira na área das artes. Tentou ser dançarino, mas logo deve de aceitar o fato que seu físico não lhe permitira tal profissão. Ao invés disso, ingressou na Marinha Mercante Britânica (em mil novecentos e quarenta e cinco), onde serviu no Pacífico. Seu capitão era um homem histérico e louco (mais uma vez a falta de lógica entra em contato com sua vida), que tinha um medo patológico de ser atacado por submarinos japoneses – ainda que a Segunda Guerra Mundial já tivesse acabado. Resultado: Russell teve de ficar horas e horas de alerta sob o sol do Pacífico, o que lhe acarretou um colapso nervoso. Logo em seguida resolveu entrar na Força Aérea Real (a RAF), onde serviu de quarenta e seis a quarenta e nove.

Ken Russell reportou as "Teddy girls" numa série de fotografias no início da década de 50. (Foto: Ken Russell)

Ao retornar do serviço militar, Russell voltou-se para a fotografia, trabalhando em uma série de fotodocumentários sobre as “Teddy girls,” subgênero da subcultura “Teddy,” que encantou os jovens ingleses após a Segunda Guerra, em que todos se vestiam de uma maneira mais ou menos arcaica, utilizando roupas do período do rei Eduardo VII. A série de fotos foi publicada no periódico Picture Post. A fotografia ao lado faz parte desta coleção.

Mas aí Ken Russell se apaixonou por outra câmera: A de Cinema. Após fazer um número de curtas-metragens amadores baseado no movimento Cinema Livre, o futuro cineasta chegou a BBC, onde passou a escrever, produzir e dirigir vários filmes biográficos sobre músicos. E foi o sucesso de Elgar, seu segundo trabalho, que lhe abriu as portas para o Cinema. Todavia, seu primeiro filme, French Dressing (Idem, 1963), uma comédia sobre um resort à beira-mar na Inglaterra. Não foi nada rentável, e o cineasta se viu de volta aos filmes de música na BBC e logo começou a polemizar: Comprou briga Hul Wheldon, seu produtor, por querer usar atores reais em uma simples série de documentários sobre música e chamou resolveu contar o envolvimento de Richard Strauss com o nazismo em A Dança dos Sete Véus (The Dance of the Seven Veils, 1970) – o que retirou o filme de circulação até a expiração dos direitos autorais das músicas utilizadas no filme, algo que acontecerá em dois mil e dezenove.

Mas nesta altura, Ken Russell já era um sujeito famoso. Apenas um ano antes, em sessenta e nove, dirigira a primeira de suas obras-primas: Mulheres Apaixonadas, estrelando Oliver Reed, Alan Bates, Glenda Jackson e Jennie Linden. Um sucesso de bilheteria, crítica e, de quebra, foi indicado a três Oscar (Melhor Fotografia, Melhor Atriz [Glenda Jackson, que ganhou] e Melhor Direção). Mas talvez Mulheres Apaixonadas seja mais lembrado mesmo pela cena de wrestling que Reed e Bates travaram totalmente nus.  Falando nisso, reza a lenda que Russell queria cortar essa cena, mas foi obrigado a colocar na montagem final porque Oliver Reed estava lhe estrangulando enquanto tentava mudá-lo de idéia. Continuar lendo

Submarine (Richard Ayoade, 2010)

5/5

O adolescente Oliver Tate (Craig Roberts) não é muito diferente de mim. De certa maneira, ele não é muito diferente de qualquer outro adolescente no mundo – ou de qualquer outro adulto com carência emocional. De qualquer jeito, prefiro acreditar que nem todo mundo é como eu. Logo, assistir as aventuras e desventuras amorosas, familiares e emocionais deste garoto é como se olhar no espelho.

Tate é um garoto singular, de raciocínio extremamente lúcido, claro e complexo. Ele é pensativo e observador, o que o leva a ter um conhecimento singular sobre a lógica humana. Conhece as atitudes de cada um dos que habitam a fauna docente e discente de seu colégio (que, pelos uniformes, soa ser um importante colégio particular da região onde mora). Portanto, um garoto de não mais que quinze anos com este comportamento só pode ser extremamente sozinho e solitário – e Oliver reconhece para si mesmo que prefere a sua própria companhia, o que é explicitado pelo filme quando é surpreendido pelo seu amigo Chips (Darren Evans) a “precisamente oitocentos metros da escola”. E essa cena, que poderia ser trivial para os mais desatentos (já que aqui acontece uma conversa sobre nada entre os dois), torna-se um interessante ponto de comparação quando a mesma coisa acontece entre Oliver e sua namorada, Jordana Bevan (Yasmin Paige) – e a reação de Oliver é totalmente diferente.

O fato é que Oliver Tate é um garoto depressivo, e necessita desesperadamente de atenção. E é aí onde a mágica do filme acontece. Richard Ayoade mostra-se um diretor bastante sensível a condição de Oliver – o que torna sua pequena obra ainda mais relevante. Vejamos, Ayoade não tem experiência alguma com direção. Na verdade, sua fama, ao menos na Inglaterra, vem do fato de ser a estrela da hilária série The IT Cowrd, onde interpreta o über-nerd Moss (se você acompanha The IT Cowrd perceberá que Moss é apenas uma variação de Oliver). Continuar lendo

O Rio Sagrado (Jean Renoir, 1955)

4/5

Fazia muito, muito tempo que não via um filme como O Rio Sagrado. Até por que filmes como este aqui são escassos. O Rio Sagrado é um daqueles raros exemplos de filmes que te tocam, que penetram dentro da sua alma e atingem o seu  coração. O filme adota uma narrativa lenta, o que tornam seus 99 minutos mais longos do que realmente parecem. Neste e em outros sentidos, O Rio Sagrado lembra A Última Sessão de Cinema (The Last Picture Show, 1971), de Peter Bogdanovich, uma vez que cada minuto dos 118 minutos daquele filme parece ser muito maiore do que os 60 segundos habituais.

Mas isso não implica dizer que O Rio Sagrado é ruim por que é lentinho. Não. Assim como acontece no filme de Bogdanovich, os longos minutos de O Rio recompensam maravilhosamente o espectador.  De fato, Jean Renoir construiu cada quadro de seu filme para adaptar-nos ao fluxo lento da água que corre no Ganges, o mais sagrado dos rios. Disputa essa posição apenas o Nilo no Egito.

O Rio te trás a uma reflexão. Ganges, Nilo, Amazonas, Mississipi, Sena, São Lourenço, Amarelo, todos esses e todos os outros rios do mundo têm em comum uma coisa singular, que poucos ou nenhum outro elemento geográfico presente na natureza é capaz de compartilhar: Eles trazem vida. Rio é vida. Às margens de um rio todos os seres são iguais. Todos eles bebem buscam comida para sobreviver. A terra sempre é fértil próxima a um rio. Quantas centenas de centenas de civilizações não viveram e morreram às margens de um rio? Tibre, romanos. Nilo, egípcios. Às margens do Ganges, os hindus vivem ao seu modo e tempo há séculos e séculos.

É por isso que O Rio é tão especial. Renoir elabora uma meditação para o espectador. Tal qual Terrence Malick em suas obras, o diretor utiliza a natureza e a vida naquela região para levar o espectador à meditação. O que há de tão especial naquele rio? Daquele rio vem alimento, a água para beber. Naquele rio os hindus celebram suas festividades religiosas – festividades estas que nenhuma outra religião chega próxima em níveis de beleza, ou mesmo de filosofia. Aliás, vale lembrar que é daquele rio de águas turvas é que sai o barro utilizado na moldagem da deusa Kali – personificação da destruição e da criação. Aliás, durante uma das milhares de cenas mostrando rituais presentes nesse filme, sai uma importante lição de vida: Nada pode ser construído sem a destruição. Continuar lendo