RoboCop é um filme atípico, urgente, inteligente, ambicioso e — sobretudo — violento.
Mais que isso, RoboCop marca o início da fase norte-americana de um dos diretores mais subestimados de todos os tempos: Paul Verhoeven. A maior parte das pessoas parece não compreender que por baixo de toda aquela pancadaria que soa ser a marca registrada de filmes como O Homem Sem Sombra (Hollow Men, 2000) e O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990), ou por baixo do sexo de Instinto Selvagem (Basic Instinct, 1993) e de (hahaha!) Showgirls (idem, 1995), ali está um cineasta que tem algo para dizer, mas não sabe como dizer de uma forma direta, objetiva ou “ponderada” — resta-o dizer de uma forma expressiva, alegórica e imagética (e eis aí a diferença entre cineastas como Verhoeven e Ken Russell — que era fã de RoboCop e que Deus o tenha —, e os classicistas).
Considere a morte de Murphy, o futuro RoboCop (Paul Peter Weller). Mais de cinco pessoas atirando com armas calibre .12, à queima-roupa, culminando num fatal tiro em sua cabeça. Bang!, e lá se foi o crânio do jovem e recém transferido policial. Momentos antes, nós testemunhamos a mão e em seguida o braço de Murphy serem brutalmente estourados. Tudo isso é visto através da direção corajosa de Verhoven, que não permite nem por um segundo que a sua câmera se afaste ou desvie o olhar.
Verhoeven não desvia olhar não por que gosta da violência; ele exige que nós olhemos para aquela selvageria que rasga qualquer vestígio de civilidade do universo futurista onde RoboCop se passa porque sabe que a morte da versão 1.0 de Murphy precisa ser impactante e chocante. Verhoeven leva o espectador a se perguntar por que vale a pena gastar tempo e dinheiro defendendo uma sociedade tão selvagem, tão grotesca; por que existe uma força policial que diz servir e proteger algo tão inumano quanto aquilo?
Cada ambiente visitado pelo filme traz um total sentimento de desilusão e desapego aos seus serviços: Atente, por exemplo, ao total aborrecimento da equipe médica que tenta salvar o que resta do cotoco humano de Murphy. É patente que ele não pode sobreviver àquilo, mas observe que a equipe médica não fica nem um pouco chocada com o estado decrépito e aterrador de seu corpo. A violência na Detroit retratada pelo filme é algo tão natural em seu dia-a-dia como andar ou comer. Continuar lendo
