Os créditos iniciais de Prêt-à-Porter nos são mostrado de forma suntuosa, acompanhados de uma orquestra filarmônica tocando a todo vapor, com a câmera girando loucamente sobre a Praça Vermelha, em Moscou. A fonte dos títulos é vista em estilo clássico, com bordas amarela e interior vermelho. Só que há um detalhe: Os créditos estão em russo. Mas sua tradução pode ser lida logo abaixo, mas sem tanta glória, bem no fim da tela: “Miramax Films presents a Robert Altman film”, só isso.
Mas a pergunta inicial é: Por que essa crítica corrosiva de Altman começa com os créditos iniciais em russo? O que isso quer dizer? Será que simplesmente Altman quis sacanear a platéia e forçá-la a ler legendas? Não. A verdade é que não há uma resposta, apenas mais ponderações. Minha interpretação para esta pegadinha de Altman para a platéia é a seguinte, tomando emprestado um dos temas de Prêt-à-Porter: As pessoas, naturalmente, ficam impressionadas com aquilo que não significa nada. Elas olham para o luxo, e naturalmente o acha belo, mas elas não entendem o que aquilo quer dizer — simplesmente tentam adivinhar qual é o valor daquilo (monetário ou não). Faz parte da natureza humana, configurar valores para o que vêem — e em grande parte, Prêt-à-Porter é direcionado exatamente para essas pessoas mesquinhas e imbecis.
Mas antes de tudo, temos que identificar o que este filme é. Antes de filmar este, Altman já havia estudado — contando por alto — dois ecossistemas distintos: Em Nashville (idem, 1975), Altman havia, mais uma vez, reportado e traduzido o funcionamento do ecossistema da música country de raiz dos Estados Unidos (o fato do filme se passar em Nashville não é gratuito), e assim ter feito uma homenagem irreverente a todo um jeito de norte-americano. Finalmente, em Short Cuts – Cenas da Vida (Short Cuts, 1993) Altman fez uma crônica, mas que também pode ser lida como crítica, social ao estilo de vida suburbana dos Estados Unidos do início da década de 90. E esses são apenas exemplos mais claros, em que o diretor não explorou sua opinião de forma mais aberta — nestes exemplos, qualquer coisa que Altman tenha dito, pró ou contra, só podem ser lidos nos subtextos, e não cabe a mim explorá-los agora. Continuar lendo





2/5