Giallo – Reféns do Medo (Dario Argento, 2009)

4/5

A nostalgia é um delicioso sentimento que consiste na saudade por tempos passados que – obviamente – não voltarão mais. Muitos hoje se lamentam pela perda da velha escola de filmes, existente na época em que jovens cineastas se preocupavam constantemente com o progresso do cinema; a independência que acompanhava esses jovens idealistas era motivada pelas muitas expressões, ainda naqueles tempos, inéditas. Eles eram independentes porque precisavam de liberdade total para assumirem a revolução; nomes como George Romero, John Carpenter e Dario Argento são os primeiros que vêm à mente quando recordamos a explosiva década de 70. Os anos 70 fora o ponto principal do cinema de horror; foi a partir daí que a seriedade absoluta ficou evidente, trocando as velhas sombras típicas do expressionismo alemão pelo sangue claro e vermelho.

Dario Argento está para o “giallo” (suspense policial italiano) assim como Orson Welles está para Cidadão Kane. Se o “giallo” era um açougueiro sanguinário nos anos 70, hoje é apenas uma lembrança que vive na mente de seus admiradores. O mais recente filme de Argento, Giallo – Reféns do Medo, é perigoso; uma obra de difícil compreensão, embora seja de uma linguagem comum. Seu título enganará alguns, e é aí que reside a periculosidade; quem esperar um filme pertencente ao subgênero que consagrou seu diretor, provavelmente se decepcionará deveras. O que tencionaram criar em Giallo – Reféns do Medo foi uma expressão de nostalgia para com aquele velho estilo italiano dos anos 70; para isso, a obra mergulha em uma sutil banheira metalingüística, que será captada mais facilmente pelos conhecedores deste tipo de cinema. Fora isso, Giallo – Reféns do Medo não é um “giallo”.

Quando Tenebre fora realizado em 1982, Argento fez uso de artifícios críticos para a reabilitação do estilo que o consagrou; para isso, o próprio fez uso do constante pessimismo, referenciou velhos mestres do mundo da literatura policial e, com lucidez, relembrou seus primeiros passos. Já no início da década de 80 o “giallo” estava em decadência, e através de Tenebre podemos captar uma ponta de esperança proveniente de seu realizador, uma esperança acerca da ressuscitação do perverso estilo sanguinário. Com Giallo – Reféns do Medo a coisa é um pouco diferente; este filme também se apóia na nostalgia, mas de uma forma melancólica, consciente de que o passado está enterrado para sempre, desprovido de qualquer esperança. Justamente por isso, não seria equívoco afirmar que é seu trabalho mais maduro e consciente – o que não significa necessariamente que se trata de sua melhor obra. Continuar lendo

Seis Mulheres Para o Assassino (Mario Bava, 1964)

4/5

Triste saber que as “cores de Almodóvar” (Adriana Calcanhoto as conhece muito bem) são mais comentadas que as cores de Mario Bava. Triste saber que o influente nome do italiano é limitado à fama de “cultuado obscuro”, quando deveria ser tão popular quanto o nome de Hitchcock. Mas o mundo é assim, mergulhado na injustiça; se houvesse justiça, as vertentes fantásticas italianas – e outras mais escondidas – teriam mais espaço nas discussões sobre cinema. Mas como dizem que as grandes mudanças sempre são iniciadas por um número pequeno de pessoas, tento fazer meu trabalho.

Esse senhorzinho chamado Mario Bava foi o responsável pela travessia do cinema italiano na ponte que dividia o noir com o giallo. Se Olhos Diabólicos (La Ragazza Che Sapeva Troppo, 1963) foi a chave para a introdução do giallo no cinema, Seis Mulheres Para o Assassino (Sei donne per l’assassino, 1964) foi a abertura. O estilo italiano nasceu em boa forma, filmado a cores – o primeiro thriller colorido do país – e já revelando partes de uma imagem própria. Ah, como é bom falar de imagem quando o tema em questão é Bava! Seis Mulheres [...] é um filme riquíssimo em detalhes físicos, com mulheres lindas – um prelúdio para a posterior abordagem do erotismo no estilo -, luzes coloridas e outros elementos estéticos que tornam o cinema do italiano tão antológico.

Sua forma surpreende até hoje, mas seu conteúdo nem tanto. Hitchcock não abraçou o “Whodunit” (refere-se a “Quem matou?”) em seus filmes, mas Seis Mulheres [...] é um claro exemplar – em parcela – seguidor do estilo do norte-americano citado há pouco – mesmo fazendo usufruto do “Whodunit”. Sendo assim, a trama do filme – juntamente com sua narrativa – é comum demais aos olhos atuais; é simplesmente uma clássica história policial com um misterioso assassino e a polícia em seu encalço; mas ainda é capaz de encantar: por ser tão simples, tão mesclada, tão clássica e tão estimuladora. Continuar lendo

Pensione Paura (Francesco Barilli, 1977)

5/5

Eita! Não, mesmo… EIIIITAAA!!! Olhem só que grata surpresa: me dignar a assistir um filme pouco conhecido que nem sequer possui pôster cadastrado no Movie Poster DB e, ainda por cima, com pouquíssimos votos no IMDB, que é o maior site sobre cinema da face da terra; e olhem bem o resultado dessa experiência: não é que o filme é uma obra-prima?… Falo do filme Pensione Paura.

Nunca, em toda minha vida como admirador assíduo do cinema, tinha me deparado com uma obra tão injustiçada quanto Pensione Paura. A coisa aqui é séria mesmo. O filme praticamente não consta no mapa do mundo cinéfilo, não aparece. Mas eu, como um fanático caçador de filmes desconhecidos e/ou injustiçados (vale colocar o cinema italiano como centro do alvo), felizmente tive o prazer de assistir a esta magnífica obra monumental dirigida por um dos maiores mestres do cinema italiano: o subestimado Fracesco Barilli.

Iniciei recentemente minha exploração pela filmografia de Ken Russell por um dos filmes mais desconhecidos dele, Savage Messiah. Não é um filme muito conhecido, o que é um fato triste, pois é um excelente trabalho. Mas há uma enorme diferença entre a injustiça que envolve Savage Messiah e a que envolve Pensione Paura. Devemos nos lembrar que Savage Messiah é, por mais que seja pouco conhecido, do aclamado Russell; mas onde entra Pensione Paura nesse caso? Pois bem, este segundo é um filme pouco conhecido, mas é… um filme de Francesco Barilli? Quem é Barilli? Reparem bem que até mesmo o comandante de Pensione Paura é abraçado pela injustiça, esquecido e quase sem nenhum público para defendê-lo – e muito pouco para recordar dele -, coisa que não acontece com o nome de Russell. Mas vamos retomar o foco do texto. Continuar lendo

Suspíria (Dario Argento, 1977)

3/5

Em determinado momento de Suspíria, lembrei-me de um comentário que fiz em meu texto para Tenebre (Tenebrae, 1982) – aliás, era a primeira frase do texto. Assim estava escrito: “Assistir a Tenebre é como assistir a um Carnaval.” Em seguida, complementei: “Tenebre é um festival de luz [...], cor e movimento.”

Agora, passados meses desde que vi àquele sanguinário filme de Dario Argento, posso confirmar que aquele estilo carnavalesco de não ficou reprimido apenas a Tenebre. Ele também se estendeu, e parece ser uma constante – e este Suspíria é a quintessência disto. Em praticamente todos os fotogramas do filme, o virtuosismo imagético, a ruptura permanente com a realidade e o atiramento sem medo com destino ao imaginário sanguinolento mais puro é visível – e o que eu escrevi sobre Tenebre e seu “Carnaval” parece boçalidade. O estilo narrativo de Argento naquele filme empalidece perto de Suspíria, porque enquanto o filme de oitenta em dois era uma espécie de reaproximação com o real, construindo um filme mais “sóbrio”, Suspíria (um filme com o chassi setenta e sete) caminha no sentido oposto e se atira no abismo: É forte, frenético e – acima de tudo – colorido.

Suspíria tem cerca de noventa e oito minutos, certo? Deste tempo, eu diria que em setenta por cento do filme eu fiquei com o coração na mão. Apesar de toda a insanidade, de toda a violência, Argento se recusa a tomar o caminho mais fácil. Não há saídas clássicas. A construção da atmosfera aterrorizante e claustrofóbica que toma de conta do filme é impecável – como usualmente acontece em sua carreira. E desde o início fica claro que o filme não dará trégua – e é uma pena que o filme fique só nisso.

Mas comecemos pelo início: Logo na primeira cena do filme, o filme deixa claro que não seguirá uma linearidade, ou mesmo uma lógica visual/narrativa. A presença das cores – que não simbolizam nada além do universo escancaradamente irreal habitado pelas personagens que transitam pelo filme – torna-se patente desde o primeiro fotograma, conforme podemos ver logo na sala de desembarque em que vemos Suzy Bannion (Jessica Harper) nossa heroína, que é iluminada pelo vermelho mais vivo que jamais veremos na vida. E vale dizer que este é apenas um de uma penca de exemplos que eu poderia citar em que as cores de Argento deliberadamente não significam nada – nada além de representar o universo insano que existe dentro de sua cabeça doente. Continuar lendo