Dracula 3D (Dario Argento, 2012)

20315189_jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx

4/5

Dario Argento sempre foi uma estrela de cinema. Não um ator, mas sim um cineasta — o que cria toda essa aura de fascinação em torno de seu cinema. Poucos são os cineastas que conseguem conquistar a imagem de uma verdadeira estrela, esta normalmente destinada na maioria das vezes aos atores. Mas temos por aí vários outros exemplos subversivos: Brian De Palma, Quentin Tarantino, Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock etc. Não é questão de arrogância por parte destes realizadores (e até é, em parte — o poder adquirido resulta na arrogância, de certa forma), mas sim questão de segurança para guiar certos ideais artísticos, o que dá a vez para o sucesso. E o ego é tanto que muitos destes diretores não fazem uma boa direção de atores; inconscientemente ou não, terminam por ofuscar as prováveis estrelas que poderiam aparecer dentro de suas obras. E é o que acontece aqui, em Dracula 3D, que contém o ótimo Rutger Hauer (este interpretando o mítico Abraham Van Helsing) no elenco, mas que tem uma aparição facilmente ofuscada pelo senso estético-imagético do grande Argento. No final das contas, o filme é apenas dele.

Uma palavra para definir Dracula 3D, além de todas as suas outras qualidades: egoísta. O filme é egoísta, de fato; fato inusitado, tendo em vista que o trabalho flerta constantemente com a cultura popular, mas o que recebemos é um filme destinado a um nicho específico. E quem vem de fora deste nicho jamais saberá do que Dracula 3D é feito. Este fluxo de loucuras nasceu a partir de toda a experiência de seu diretor naquele meio produtivo que era a Europa nas décadas de 60 e 70 em relação ao Cinema Fantástico; e o que Dario Argento nos entrega é basicamente um reflexo de alguém que trabalhou lado a lado a mestres como Lucio Fulci e Mario Bava. É o passado sendo relembrado, mas sempre consciente de que os pés estão fixos no presente; e então percebemos que Dracula 3D, por mais que seja um filme que relembre o passado, é um contemporâneo filme B — o uso de efeitos de CGI toscos está aí para provar. O filme ri de si mesmo; não de forma zombeteira, mas de forma alegre e brilhante — com diversão. Continuar lendo

Giallo – Reféns do Medo (Dario Argento, 2009)

4/5

A nostalgia é um delicioso sentimento que consiste na saudade por tempos passados que – obviamente – não voltarão mais. Muitos hoje se lamentam pela perda da velha escola de filmes, existente na época em que jovens cineastas se preocupavam constantemente com o progresso do cinema; a independência que acompanhava esses jovens idealistas era motivada pelas muitas expressões, ainda naqueles tempos, inéditas. Eles eram independentes porque precisavam de liberdade total para assumirem a revolução; nomes como George Romero, John Carpenter e Dario Argento são os primeiros que vêm à mente quando recordamos a explosiva década de 70. Os anos 70 fora o ponto principal do cinema de horror; foi a partir daí que a seriedade absoluta ficou evidente, trocando as velhas sombras típicas do expressionismo alemão pelo sangue claro e vermelho.

Dario Argento está para o “giallo” (suspense policial italiano) assim como Orson Welles está para Cidadão Kane. Se o “giallo” era um açougueiro sanguinário nos anos 70, hoje é apenas uma lembrança que vive na mente de seus admiradores. O mais recente filme de Argento, Giallo – Reféns do Medo, é perigoso; uma obra de difícil compreensão, embora seja de uma linguagem comum. Seu título enganará alguns, e é aí que reside a periculosidade; quem esperar um filme pertencente ao subgênero que consagrou seu diretor, provavelmente se decepcionará deveras. O que tencionaram criar em Giallo – Reféns do Medo foi uma expressão de nostalgia para com aquele velho estilo italiano dos anos 70; para isso, a obra mergulha em uma sutil banheira metalingüística, que será captada mais facilmente pelos conhecedores deste tipo de cinema. Fora isso, Giallo – Reféns do Medo não é um “giallo”.

Quando Tenebre fora realizado em 1982, Argento fez uso de artifícios críticos para a reabilitação do estilo que o consagrou; para isso, o próprio fez uso do constante pessimismo, referenciou velhos mestres do mundo da literatura policial e, com lucidez, relembrou seus primeiros passos. Já no início da década de 80 o “giallo” estava em decadência, e através de Tenebre podemos captar uma ponta de esperança proveniente de seu realizador, uma esperança acerca da ressuscitação do perverso estilo sanguinário. Com Giallo – Reféns do Medo a coisa é um pouco diferente; este filme também se apóia na nostalgia, mas de uma forma melancólica, consciente de que o passado está enterrado para sempre, desprovido de qualquer esperança. Justamente por isso, não seria equívoco afirmar que é seu trabalho mais maduro e consciente – o que não significa necessariamente que se trata de sua melhor obra. Continuar lendo

Suspíria (Dario Argento, 1977)

3/5

Em determinado momento de Suspíria, lembrei-me de um comentário que fiz em meu texto para Tenebre (Tenebrae, 1982) – aliás, era a primeira frase do texto. Assim estava escrito: “Assistir a Tenebre é como assistir a um Carnaval.” Em seguida, complementei: “Tenebre é um festival de luz [...], cor e movimento.”

Agora, passados meses desde que vi àquele sanguinário filme de Dario Argento, posso confirmar que aquele estilo carnavalesco de não ficou reprimido apenas a Tenebre. Ele também se estendeu, e parece ser uma constante – e este Suspíria é a quintessência disto. Em praticamente todos os fotogramas do filme, o virtuosismo imagético, a ruptura permanente com a realidade e o atiramento sem medo com destino ao imaginário sanguinolento mais puro é visível – e o que eu escrevi sobre Tenebre e seu “Carnaval” parece boçalidade. O estilo narrativo de Argento naquele filme empalidece perto de Suspíria, porque enquanto o filme de oitenta em dois era uma espécie de reaproximação com o real, construindo um filme mais “sóbrio”, Suspíria (um filme com o chassi setenta e sete) caminha no sentido oposto e se atira no abismo: É forte, frenético e – acima de tudo – colorido.

Suspíria tem cerca de noventa e oito minutos, certo? Deste tempo, eu diria que em setenta por cento do filme eu fiquei com o coração na mão. Apesar de toda a insanidade, de toda a violência, Argento se recusa a tomar o caminho mais fácil. Não há saídas clássicas. A construção da atmosfera aterrorizante e claustrofóbica que toma de conta do filme é impecável – como usualmente acontece em sua carreira. E desde o início fica claro que o filme não dará trégua – e é uma pena que o filme fique só nisso.

Mas comecemos pelo início: Logo na primeira cena do filme, o filme deixa claro que não seguirá uma linearidade, ou mesmo uma lógica visual/narrativa. A presença das cores – que não simbolizam nada além do universo escancaradamente irreal habitado pelas personagens que transitam pelo filme – torna-se patente desde o primeiro fotograma, conforme podemos ver logo na sala de desembarque em que vemos Suzy Bannion (Jessica Harper) nossa heroína, que é iluminada pelo vermelho mais vivo que jamais veremos na vida. E vale dizer que este é apenas um de uma penca de exemplos que eu poderia citar em que as cores de Argento deliberadamente não significam nada – nada além de representar o universo insano que existe dentro de sua cabeça doente. Continuar lendo

Tenebre (Dario Argento, 1982)

3/5

Assistir a Tenebre é como assistir a um Carnaval. Tenebre é um festival de luz (olha a ironia aí), cor e movimento. Dario Argento, estilista nato, elabora seu filme dentro de uma estética com níveis de plasticidade fora do limite. Cada plano de Tenebre é milimetricamente pensado e planejado para se encaixar no festival elaborado por seu diretor, já que Argento, artesão que é, coloca a estética em detrimento da narrativa.

Mas felizmente a estética elaborada por Argento para contar a história do escritor de suspense Peter Neal (Anthony Franciosa), quase que por milagre, se encaixa perfeitamente na narrativa do filme. Tenebre não é um suspense comum – aliás, nem suspense é: Tenebre é gore. O sangue voa. E voa mesmo.

Escrito pelo próprio Argento, Tenebre se segura num fiapo de trama – que, a princípio, nem soa ser tão importante assim. O tal Neal chega a Roma para promover seu novo livro (que, não por acaso, se chama Tenebrae), e se depara com uma situação bizarra: Um assassino está à solta na cidade, matando mulheres com uma navalha, de forma similar àquelas descritas em seu livro. Para complementar, o assassino da navalha entrega mensagens contendo charadas para Neal, em seu apartamento. Lentamente, Neal se vê envolvido num vórtice de mistério, crime e drama. À medida que os assassinatos chegam mais e mais próximos da sua pessoa, Neal se vê num dos seus próprios romances de suspenses – o que o leva a tentar descobrir a identidade do assassino, que ninguém, nem mesmo o público, nem a polícia, sabe quem é. Continuar lendo