Babel (Alejandro González Iñárritu, 2006)

2/5

Babel é o filme que encerra uma trilogia idealizada pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu. Um acidente é ponto de congruência entre histórias paralelas: em Amores Brutos (Amores perros, 2000), elas envolviam amores trágicos; em 21 Gramas (21 Grams, 2003), o desejo de vingança; nesta produção, a incomunicabilidade. Por isso o nome do filme: a história da Torre de Babel descrita na Bíblia mostra como a incomunicabilidade entre os homens os impede de chegar aos reinos dos céus, como neste longa-metragem.

O modelo da narrativa clássica sempre buscou ser “um cinema da homogeneidade” que atraísse as mais diversas pessoas, de diferentes origens étnicas, classes sociais, formações pessoais, etc. É o velho dilema da cultura de massa: somos iguais na diferença, mas cada vez mais iguais, com necessidades e carências. A invisibilidade da narrativa é mero recurso para um cinema que guia o olhar e o desejo, que o reprime quando quer, e o liberta de acordo com suas conveniências. Ao mesmo tempo, nada há de mais universal do que o jardim da nossa casa, do que um casal e seus filhos. É assim que se “domestica o exótico” e se “pasteuriza o estrangeiro”. Daí os estereótipos, os preconceitos, em suma os “clichês”.

Por outro lado, é preciso mudar para que se continue o mesmo. É preciso que a narrativa clássica levemente se molde à multiplicidade e à histeria da velocidade contemporânea, e ao mesmo tempo é preciso ser mais particular para ser mais geral. A proposta de Iñarritu em Babel é essa: quatro núcleos de personagens em quatro continentes. Quatro famílias: uma família marroquina, uma família americana, uma família japonesa, uma família mexicana. Quatro histórias que se ligam por um acidente. Babel poderia se chamar Acidente. Mas acidental é tudo o que Babel não é.

Como um verdadeiro demiurgo, Iñarritu (e Ariaga) vai costurando essas tramas de forma paralela, criando uma tensão crescente, que sobe em espiral. Os tempos e as histórias não necessariamente se fecham, mas deixam pontas soltas, sem necessariamente se encaixar. Mexicano típico, Iñarritu sofre de um profundo fatalismo e, quase numa inspiração mística, faz uma parábola do mundo como um paraíso perdido, como uma confortante bolha de sabão que está sempre prestes a implodir. Com isso, assinala fundo a fragilidade do homem, a miséria da condição humana, a busca pela redenção que nunca vem. É uma espiral de decadência física e emocional, mas nunca moral. Continuar lendo