Grandes Cenas – Zodíaco
Um momento que considero ímpar no Cinema recente é a primeira morte mostrada na obra-prima de David Fincher, Zodíaco (Zodiac, 2007). Apesar de ser um filme injustamente subestimado e frequentemente ignorado pelo público e, até mesmo, pela própria crítica especializada, Zodíaco deveria ser visto como um exemplar absoluto de todo poder criativo de um cineasta absolutamente genial. Zodíaco, não é só uma envolvente (ainda que difícil) narrativa sobre um serial killer, mas também se configura (ao lado de Sangue Negro, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford e A Rede Social [The Social Network, 2010], também de Fincher) como um dos mais impressionantes estudos de personagem criados pelo cinema norte-americano dos últimos vinte anos — o roteiro cuidadosamente criado por James Vanderbilt (que nunca mais chegou perto de criar uma obra que chegue à sola do sapato de Zodíaco) possuidor de uma carga dramática e de um arco de personagem fascinante, a atmosfera anaeróbica eficientemente criada por Fincher, a belíssima fotografia de Harry Savides e, claro, a absolutamente soberba montagem de Angus Wall, são, todos juntos elementos que transformam esse filme numa obra gigantesca.
E claro que esta mistura de qualidades, em algum momento, vão nos trazer momentos de puro deleite — e no caso de Zodíaco, o primeiro está justamente no início; a cena da morte da garota no carro. Esta cena, como toda grande cena, não é isolada das outras. Aliás, uma das grandes qualidades de Zodíaco é que a soma das suas partes não é melhor que o resultado inteiro (como é, talvez, O Quarto do Pânico [Panic Room, 2002] ou o medíocre Clube da Luta [Fight Club, 1999] — envergonhem-se, fãs). De fato, esta primeira cena (que, narrativamente, deve ser considerado como o prólogo do filme) tem sua grandeza elevada porque o que acontece nela refletirá e ecoará durante toda a narrativa, sendo a motivação dos personagens de continuar com seus objetivos; além de ser o ponto de partida da trama.
Tal qual A Rede Social, Zodíaco é um círculo. A personagem que inicia o arco dramático do filme (Michael Mageau, o sobrevivente do ataque de Zodíaco) está na primeira e na última cena do filme, mas de maneiras bem distintas, que abordarei depois.
A primeira tomada do prólogo — e do filme, claro — é um belíssimo plano aéreo, concebido em computador (um dos fatores que me levam a admirar Fincher de forma quase incondicional é como ele utiliza os efeitos especiais como ferramenta narrativa, e não como gimmick), nos apresenta, curiosamente, não o espaço da ação, mas o tempo: Uma noite de 4 de Julho. Não é necessário, agora, que nós estejamos cientes de esta é a cidade de Vallejo, na Califórnia, basta que saibamos que esta é uma noite especial: Fincher coloca elementos na tela que nos indicam isso — que são, no caso, os fogos de artifício. Continuar lendo →