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Parece irônico que este penúltimo longa-metragem (até hoje) de Michael Cimino se chame Horas do Despero, visto por tudo que o cineasta sofreu desde o lançamento de O Portal do Paraíso (Heavens’s Gate, 1980) nas mãos daquela mesma que lhe acolheu quase como um rei através de um único filme? a Hollywood. No lugar de uma das maiores estrelas de Hollywood (Humphrey Borgat), um rosto estranho, pouco moldável e que já nasce pronto para decadência ecarnado com maestria pelo sempre subestimado Mickey Rourke. Podem não parecer detalhes relevantes assim escrito, mas é nestas condições de “sutileza” que Cimino trabalhou neste e em Na Trilha do Sol (The Sunchaser, 1996) para imprimir sua marca autoral.
É bem verdade que Cimino gosta de se representar em seus filmes sempre através da construção de um mito – nada mais natural para um egocêntrico – e até O Portal do Paraíso estes mitos em, pelo menos, algum momento do filme são vibrantes e inspiradores; seja através do gângster bronco que caminha para a humanização vivido por Clint Eastwood em O Último Golpe (Thunderbolt and Lightfoot, 1974), seja pelas expressões carregadas de medo e responsabilidade de Robert De Niro em O Franco Atirador (The Deer Hunter, 1978). Mas a partir de O Ano do Dragão (Year of the Dragon, 1985) – realizado cinco anos após o baque de O Portal do Paraíso – algo mudou em relação a esta construção do mito: aqui também vivido por Mickey Rourke, ele não era mais vibrante (ás vezes tentava se enganar, talvez representando o fiapo de esperança que Cimino tinha de voltar ao topo) e muito menos inspirador, pelo contrário; o mito era apático e desde o início da sua saga já sabíamos que o único fim que ele teria era a decadência.
Para Cimino esta decadência do mito não representava um simples personagem, nem mesmo a decadência dele mesmo, mas também a decadência de um mundo, da América e, porquê não, do cinema em Hollywood? Para Cimino é possível que Mickey Rourke fosse o motivador da decadência de Anthony Hopkins. Ora, mas com aquele final motivador não é óbvio que quem caiu alí – literalmente – foi só Rourke? Numa análise apressada e superficial até pode ser, mas por trás deste desfecho capriano, que nas mãos de um Steve Spielberg da vida poderia resultar em só mais uma guerra maniqueísta onde o bem sempre vence, há a crença de Cimino. A crença de que enquanto o homem existir, haverá violência. Nem Mickey Rourkew é o vilão, nem Anthony Hopkins o bom moço; o que ambos estão vivendo alí é apenas uma dura consequência de sua própria existência. E assim, fica cruel explicar o final de Horas do Despero, ele é tão desolador quanto o de Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas (Bonnie & Clyde, 1967) e Pat Garret & Billy The Kid (idem, 1974). Continuar lendo





