“When the spoilers start to fall Then the strongest rules it all”.
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Eu não me lembro muito bem de como eu consegui fazer tal proeza — mas eu sei que consegui. O ano era 2008 e antes de chegar ao lobby do shopping — o lobby do cinema, na verdade — eu tinha me esquecido quase que completamente do que havia acabado de ver nas duas horas e 30 anteriores: Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008).
Eu tinha planejado rever ao menos os dois filmes anteriores da trilogia dirigida por Christopher Nolan. Não porque eu goste dos filmes (tenho certa predileção por Batman Begins e chego a acreditar que é a melhor coisa que Nolan já fez), mas sim para me lembrar do que a trilogia fala.
Begins eu ainda consegui rever pela metade na TV, Cavaleiro das Trevas não.
Não ter revisto o segundo filme da franquia me deixou preocupado — será se eu vou conseguir entender o filme? Sim, é um filme de Christopher Nolan, o que significa que tudo será mastigadinho e triturado no liquidificador para o público, mas ainda assim é preocupante (e eu aposto que se algum nolanrólotra ler este texto usará a frase anterior como contra-argumento).
Bom, qualquer preocupação que eu pudesse ter foi imediatamente dopada; amansada e exterminada logo na primeira metade do primeiro ato. Eu costumo dizer que quem assistiu a Waking Life (idem, 2001) e não entendeu o filme só precisa ver A Origem (Inception, 2010). Aliás, A Origem é um filme que deveria ser queimado em praça pública: Tem a oportunidade ser algo grande, um filme para as eras — um diretor que teve a ousadia de pegar o dinheiro de um estúdio grande e semear intelectualidade e filosofia nas mentes dos espectadores do verão norte-americano. Mas não; Nolan é covarde demais para isso. Prefere construir toda a “atmosfera” dos sonhos e daí explicar tudo sem mais delongas.
O fascinante é que ainda assim as pessoas conseguem discutir sobre A Origem. O peão continua girando ao final? Grandes coisas. Você despreza Uma Odisseia no Espaço e ama A Origem. Você é um bebê.
E chegamos a O Cavaleiro das Trevas Ressurge.
Mesmo que eu tenha dito o que eu disse acima sobre o filme de Nolan estrelado por Di Caprio, ainda assim eu preciso reconhecer que A Origem é, no mínimo, corajoso: Lida com sonhos e tenta (tenta) ser ambíguo. Se ele explica tudo ao final é secundário, olhando por esse ponto — o espectador médio passa por isso despercebido; ao ser explicado das coisas que não consegue entender, mas que “pegou no ar” nos momentos anteriores, ele fica feliz e satisfeito com seu próprio poder de observação. Isso é um fato.
Mas Nolan não poderia arriscar esse joguinho num filme como The Dark Knight Rises (por convenção, chamaremos o filme daqui para frente de TDKR). Não na parte final da trilogia. Aqui é preciso pegar o espectador-alvo pela mão e guiá-lo pelo caminho das pedras. É necessária menos contemplação e mais ação. Tomando consciência que a nova saga de Batman é um grande (e formulaico) filme em três atos, TDKR funciona como aqueles trabalhos inseguros de si e que tentam tapear o espectador com um terceiro ato bombástico e cheio de revelações. E o problema, é claro, é que ninguém gosta de ser tapeado; um espectador mais atento nota que foi chamado de burro e foi ofendido.
TDKR é um filme com proposta e execução lamentáveis desde o primeiro instante: Os primeiros cinco minutos são dedicados a uma ridícula apresentação de Bane (Tom Hardy); uma apresentação que em muito nos recorda àquela do Coringa de Heath Ledger. Injeção de adrenalina e doses altas de pancadaria. Uma pancadaria que Nolan não sabe como apresentar (mais sobre isso adiante).
Paralelo a isso, acompanhamos as festividades do Dia de Harvey Dent. Vemos a hesitação do Comissário Godon (Gary Oldman) ao discursar sobre o homenageado. Ele bateu um texto que revela a verdade sobre o homem que, em última análise, “livrou” Gotham do crime. Gotham, como é dito mais tarde, foi salva baseada em mentiras, e essas mentiras consomem Gordon.
A verdade é que todo mundo sabe quem é Harvey Dent e porque morreu. Entretanto, Nolan não se detém em usar breves inserts que mostram a última cena do filme anterior. Ora, se Dent foi uma personagem tão marcante, marcante suficiente para ser lembrado neste filme, pra quê gastar tempo com imagens picotadas que mostram Gordon com a boca escancarada? E ainda se fosse somente momentos com Gordon com a boca escancarada, ainda assim saberíamos que ele está pensando no verdadeiro Harvey Dent — o psicótico Duas Caras — já que Nolan o enquadra ao centro de duas fotos do homenageado em trajes galantes (e, por tabela, falsos). Não há nada que justifique os inserts além de uma perigosa falta de confiança da parte de Nolan — quem reaproveita imagens de arquivos dos próprios filmes só pode ser uma espécie de Ed Wood do século 21.
Ademais, é justamente na falta de confiança de Nolan para com o seu público onde reside a “força” do seu cinema. A “graça” de TDKR está fundada na mesma “graça” de A Origem e de Amnésia (Memento, 2000): Surpresas gratuitas. E partindo do princípio que esses plot twists são frequentes no cinema de Christopher Nolan, é estranho ver que ninguém faz piadas iguais àquelas que fazem com M. Night Shyamalan. (Imagine se A Origem fosse um filme do indiano: “Eu acordei e descobri que ainda estava sonhando. Directed by M. Night Shyamalan, hahaha”).
É interessante observar, também, o desprezo incrível que TDKR tem para com as mulheres que nele transitam (na verdade, o cinema de Nolan é machista como um todo, mas receio que não há espaço para avançar neste campo). Observemos primeiro a personagem Miranda, interpretada por uma claudicante Marion Cotillard.
Qual a finalidade de Miranda, como um todo, no filme? Resposta: Nenhuma. Nenhuma a não ser para “surpreender” o espectador, já no terceiro ato da trama. Nolan não tem vergonha alguma de submeter o espectador a um plot twist com uma personagem totalmente descartável. Afinal de contas, Miranda, em algum momento, foi fundamental ao filme? Há alguma ação definitivamente importante que ela desempenhe durante os longos 167 minutos de TDKR? Não. OK, alguém irá dizer que ela assume o controle da Corporação Wayne, mas ainda assim aí está um papel que poderia ter sido desempenhado por qualquer outra pessoa da galeria de personagens do filme. Miranda só está ali simplesmente para fazer caras e bocas. Ela é filha de Ra’s Al Ghul? Então essa é a imortalidade de que ele tanto fala? “A imortalidade tem muitas formas”, é verdade. A melhor dela é quando a pessoa morre fisicamente, mas vive na memória. Há um momento em TDKR em que Al Ghur atinge de fato a imortalidade, e é quando Wayne o vê quando está, literalmente, no fundo do poço. E Nolan, como não poderia deixar dizer, queimou esse belo momento.
Selina Kyle/Mulher-Gato (Anne Hathaway) idem. Fazia tempo que eu não via uma personagem tão histericamente irritante num filme. O problema de Selina nasce desde sua apresentação inacreditavelmente formulaica: Não há um avanço gradativo em suas ações, ela simplesmente surge como uma variação do velho gênero da prostituta-de-coração-de-ouro, usando o clichê mais batido do mundo dos filmes de ladrões: A ladra que só permanece cometendo crimes porque existem bandidões atrás dela. É um erro que eu normalmente não reclamaria, mas num filme de um diretor que tenta desesperadamente soar profundo e propor uma reinvenção do gênero de super-heróis, isto é um erro imperdoável.
E quando Nolan não peca por falta, faz por excesso. É incrível perceber como praticamente todos os personagens em TDKR têm momentos dedicados a monólogos que vasculham suas origens. Algumas vezes, é certo, é um mal necessário — o Batman volta às ruas, por exemplo, após escutar as origens de Blake (Joseph Gordon–Levitt). Outras vezes, como no caso de Miranda, é puro atraso; até mesmo o próprio médico da prisão onde Batman se encontra tem seu próprio flashback biográfico. (Aliás, a “fantástica” origem de Miranda só tem sentido para justificar a “surpresa” de sua verdadeira identidade e para revelar de onde o Bane veio; e me parece que todo mundo tem um monólogo neste filme).
E se TDKR é um fracasso de proporções míticas desde a organização dos seus personagens, estruturalmente e esteticamente é ainda pior. É certo que os melhores e piores manuais de roteiro nos dizem que o primeiro ato e apenas o primeiro ato de um filme deve servir como estojo para a apresentação dos personagens, mas o que há aqui é um estupro. É fato que Nolan e seu parceiro de longa data Lee Smith, montador, amam transições bruscas e cortes secos (Amnésia mesmo termina imediatamente depois do último “t” de “What?”). Isso justifica o excesso de cortes e montagens paralelas nos primeiros 10 minutos? Desconfio que não. Qualquer um que diga que a montagem do primeiro ato de TDKR é elegante deveria ler um livro de Gloria Kalil, porque elegância não pode — não deve — ser retalhos serrados e puídos. (E isso para não falar da fotografia aborrecida de Wally Pfister, que confunde neonoirismo com escuro).
É que há um descontrole em TDKR. Se a própria apresentação dos personagens não funciona (são personagens em ações prosaicas e que simplesmente apresentam as caricaturas dos seus próprios seres), as lutas, por tabela, também não podem funcionar. E o problema aqui nem vai para Lee Smith (pelo contrário, ele consegue amarrar as ações paralelas muito bem, depois), mas para o próprio Nolan:
Há um termo que eu particularmente não gosto, mas que aqui vale: “Fascínio pela imagem”. É aquele sentimento que nos é despertado quando sabemos que um diretor está amando o que está filmando. Mesmo Michael Bay tem (aqueles travellings circulares, por mais enfadonhos que possam parecer, simbolizam isso). Nolan não. Há algum plano memorável em TDKR? Não. Há tentativas repetidas de estabelecer um (Batman no alto da ponte, contemplando a Gotham caótica, por exemplo), mas eles soam tão deslocados que é ridículo — se sentiriam mais em casa na trilogia Homem-Aranha do gênio Sam Raimi. A mise-en-scène do filme é um tenta ser esboço de um estilo “padrão”, em que o diretor tenta se interferir o mínimo possível na ação, mas até nisso falha. As cenas de luta são a prova cabal disso. Lutas normalmente são pra cima e excitantes, com belos planos abertos, contrapostos com murros em close ou na própria lente. Em TDKR, elas são colagens aleatórias e surtadas de diferentes tomadas do mesmo plano, e quase todos captados em plano-americano. Nolan só parece mudar a estratégia quando quer escancarar algo estapafurdiamente ululante, como quando vemos o nosso velho amigo Dr. Jonathan Crane (Cillian Murphy) no alto de uma pilha de objetos, no papel de um juiz, nos obrigando a constituir uma ligação óbvia (e infantil) com o Tribunal d’O Processo de Kafka. (Aliás, pensando bem, acho que vi um plano similar em algum desenho dos Looney Tunes, mas também podia ser da Disney — Pato Donald ou Pluto. Agora eu não lembro).
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Agora vamos nos deter um pouco e vamos analisar um campo bastante chamativo neste último filme de Nolan: A filosofia por trás de seu trabalho.
É impressionante observar que num filme de um cineasta que se coça e anseia em tornar seus filmes em verdadeiras matrioshkas que nada de realmente relevante possa ser tirada da superfície óbvia de seu mais recente trabalho. Em última análise, TDKR é um filme essencialmente vazio, e estou muito longe de que convençam do contrário. É uma história banal de (1) um mordomo com complexo de paternidade; (2) um riquinho hedonista; (3) uma ladra de bom coração; (4) um órfão cansado de esquentar banco; (5) um monstro cheio de filosofismos.
Mas abaixo da superfície, os irmãos Jonathan e Christopher Nolan (que desenvolveram o roteiro baseado num argumento concebido pelo diretor e David S. Goyer) criaram uma história avassaladora neocapitalista e reacionária. Christopher, essencialmente (já que ele é o responsável pelo filme), respira o medo de Deus — o que é Bane senão uma pintura medonha do maior medo norte-americano, um revolucionário?
Não é a primeira vez que a trilogia Batman demonstra medo daqueles que surgem com algo novo para Gotham: O primordial Ra’s Al Ghul era alguém que procurava destruir Gotham não para erradicá-la, mas para que deixasse de ser uma cidade do pecado e florescesse como algo belo e cristalino. A destruição proposta por Ghul não é física, mas sim ideológica. (É física num aspecto superficial, óbvio). Bane idem, mas aqui está mais disfarçado. A bomba é apenas um mero MacGuffin.
Bane não é nada além de um proverbial líder comunista carismático. Ele tem um aspecto parrudo e bizarro, mas observe como Tom Hardy o compõe com uma elegância extraordinária. Seu sotaque é chamativo e sua retórica é fluída. Talvez o que mais chama a atenção para o que eu quero dizer seja sua postura característica, sua linguagem corporal. Ele caminha como se fosse uma mistura de competidor de luta livre com um homem de negócios (as mãos segurando aquela espécie de bandoleira evidenciam isso, e Nolan contribui gentilmente para a sua grandiosidade filmando-o constantemente em contra-plongée).
E então surge o Batman. Batman é alguém que ajudou a “salvar” Gotham com base não num gesto heroico, mas sim em mentiras. São mentiras sinceras, mas ainda são mentiras. Ele corroborou com a polícia para que mandassem todo tipo de criminoso para as celas sem direito a liberdade condicional durante oito anos. Eu não duvido que existam lá pessoas que estão presas desde furtos (como é o caso da Mulher-Gato) até estupradores e pedófilos. Mas, neste caso, cito agora o Governador Mike Morris em Tudo pelo Poder (The Ides of March, 2011): “A sociedade tem de ser melhor que o indivíduo”.
Se bem que Christopher Nolan manda a sociedade pelos ares. Batman não é o Cavaleiro das Trevas, é o cavaleiro do Capitalismo e do Individualismo. Batman é o menos heroico de todos os heróis: Peter Parker e Clark Kent são proletários (fotógrafo e jornalista, respectivamente) cujos poderes foram recebidos por entidades superiores (Kent literalmente foi mandado dos céus). Bruce Wayne/Batman não: Usou seu dinheiro para conquistar seus poderes, e eles podem ser muito bem quebrados com um murro poderoso (Bane o faz, aliás).
(Observe que nem a descartável, ainda que bonita de olhar, Selina Kyle, escapa do maquinário capitalista de Nolan. Ela rouba, mas não rouba para vender, mas sim para olhar para seus furtos — joias, casacos, colares, etc.).
Batman impede que a revolução ocorra em Gotham. Gotham é Nova York. Você imagina uma Nova York comunista? É ridículo pensar isso — o que leríamos na Times Square? Anúncios da Victoria’s Secret? Não, trechos d’O Manifesto Comunista ou exibiriam pedaços de O Encouraçado Potemkin e Outubro de Eisenstein.
Por isso mesmo, a tal da bomba que Bane incita à explosão é um simbolismo para a revolução filosófica em Gotham; é como se cada vez mais a filosofia da destruição do power that be fosse sendo comprada — o que acarreta a destruição da cidade atual, claro. A cidade seria reconstruída, mas com o “poder no povo”.
Mas o interessante é que Nolan evita mostrar Bane como um verdadeiro líder marxista, mas mais como um déspota centralizador como Stalin ou Mussolini (eu não vou citar o nome do Alemão porque não quero cair no lugar-comum). O controle da bomba está com alguém do povo? Claro que não. Nolan até nisso nega poder às massas — o libertador/déspota libera os oprimidos (os prisioneiros fazem papel do povo e a polícia é nada além dela mesma, o órgão opressor), mas imediatamente instaura pra si o poder maior, ele quem decide — e não o povo — quem vive e quem morre; quem passa fome ou quem come.
Então eu não preciso dizer mais que TDKR é um filme nojento em proporções homéricas e de duração inaceitável. É doloroso chegar ao final. Eu pensava que o público iria aplaudir tanta brutalidade (apesar de tudo, eu me lembro de que eles aplaudiram ao final de The Dark Knight), mas a plateia mesma estava enfadada. Eles estavam nervosos e estavam certos — aqui está um filme que não é baseado num romance de Nicholas Sparks, mas que assim mesmo consegue parar toda a ação, no alto do pico, para mostrar os heróis se beijando. Sim, o Cinema foi inventado para mostrar gente se beijando e gente se matando, mas não ao mesmo tempo.
Que Joseph Gordon–Levitt é o Robin? Óbvio. Que Miranda é a filha de Ra’s Al Ghul, mais óbvio ainda. Que Alfred (Michael Caine) está olhando Bruce e Selina ao fim do filme? Isso é tão claro quanto à luz deste computador.
É por isso que eu prefiro os filmes de Joel Schumacher. Eles são histriônicos, mas têm swag; eles abraçam a natureza carnavalesca de uma história em quadrinhos. É isso — ou você consegue aceitar adultos andando com capas e batendo em bandidos megalomaníacos?
A única profundidade que podemos extrair de um filme de super-herói pretensioso como The Dark Knight Rises é aquela que nem o autor sabia que estava colocando: Seus próprios preconceitos.
The Dark Knight Rises, 2012 / Dirigido por Christopher Nolan
Com Christian Bale, Tom Hardy, Anne Hathaway, Michael Caine, Gary Oldman, Marion Cotillard, Joseph Gordon–Levitt, Matthew Modine, Liam Neeson, Morgan Freeman, Alon Abutbul, Tony Amen e Uri Gavriel
Victor Bruno
Deixei de assinar o site, VB não passa de um criticozinho de meia tigela que gosta de aparecer.
Então, acho que nós temos que salvar Chris Nolan de detratores como eu. Vou apagar meu texto em consideração AO MESTRE NOLAN!
Muita ira, haha.
Curioso que o cinema do Nolan parece que não anda pra frente, se tu for escrever sobre os filmes, provavelmente tu vai escrever sobre os mesmos erros.
O que mais me incomodou tá no parágrafo que diz que não tem nenhum plano memorável. É muito pouco cinema pra tanto alarde.
“É isso — ou você consegue aceitar adultos andando com capas e batendo em bandidos megalomaníacos?”
pois é, só um pensamento: eu acho que o cinema não é lugar ideal pra essas leituras “realistas” pros super-heróis. os HA do Raimi abraçam a fantasia e andam bem por aí. acho que é um problema de transposição entre as artes, por mais que o conceito seja bizarro. no quadrinho acaba funcionando porque, por mais que seja um mundo crível do outro lado, é um desenho na tua frente, e acaba sendo automático esse desprendimento de uma suposta “realidade” – e saíram obras muito boas daí. já no cinema, com pessoas de carne-e-osso, alguma coisa não bate.
Ó, a validade de um filme de super-heróis não é maior do que a de um Marcelinho Lendo Contos Eróticos da vida. Você consegue aceitar um boneco (ou um Tobey Maguire em roupas de borracha) na sua frente porque aquilo é um estímulo estético; não é real e há toda uma programação de imersão até o filme. Nolan não aceita isso. Eu acho que o grande mote de um filme como o do Super-Homem e tal são justamente a mistura de dramas humanos (estar longe de casa, fingir ser uma pessoa comum) com toda aquela verve fantástica, com Lex Luthor e seus capangas e uma femme-fatalle caricatural.
O Omer Mozefer, no site do Roger Ebert, falou algo interessante. Ele disse que o grande problema dos filmes de super-heróis é que são, nada mais nada menos, do que crianças numa creche. Não dá pra aceitar o Batman com AQUELAS roupas bancar o herói real, no cinema ele não fica muito longe de um garoto que se veste de cowboy. Batman funciona nos quadrinhos porque não é realista; é somente uma estilização grossa e alegórica da realidade. Procura ser adulto, mas não se esquece de ser, antes de tudo, fantasia.
ADENDO: Eu não pretendo gastar mais tempo escrevendo sobre um filme de Nolan. Vou assumir agora esta postura:

“É por isso que eu prefiro os filmes de Joel Schumacher. Eles são histriônicos, mas têm swag; *eles abraçam a natureza carnavalesca de uma história em quadrinhos*. É isso — ou você consegue aceitar adultos andando com capas e batendo em bandidos megalomaníacos?”
Cara, eu gostei do seu texto. Apesar de engomar um pouco aqui e ali, você soube expor argumentos suficientemente críveis para a sustentação desse seu ponto de vista absurdamente chato. Só que eu achei essa parte destacada bastante reducionista; você desconsiderou a tentativa de dar um passo adiante da “natureza carnavalesca” (por mais que você aparente condenar o pragmatismo do Nolan em um filme de herói), meio que se acomodou na ideia fílmica do Schumacher de apontar (ou criar, o que é mais provável) o que há de ridículo nas histórias em quadrinhos. Essa afirmação me soou, de certa forma, preconceituosa. Todavia, a resenha ficou muito boa.
Cara, parabéns. Seu texto é uma sucessão de argumentos estúpidos. Tô pensando aqui se perco tempo de vida para “responder” este texto ou não. Mas a breve conclusão a que cheguei foi que o único preconceituoso aqui foi você, não o Nolan.
Valeu. Tamo aí pra isso, brother.
“Cara, parabéns. Seu texto é uma sucessão de argumentos estúpidos. Tô pensando aqui se perco tempo de vida para “responder” este texto ou não. Mas a breve conclusão a que cheguei foi que o único preconceituoso aqui foi você, não o Nolan.”
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Pau no cu do comber.
Grande texto, rapá. Só agora foi que li. Argumentou legal e consegue convencer a qualquer um que tenha a mente aberta – claro que os ceguetas irão se negar a aceitar isso, portanto não funcionará com eles.
E faça um texto sobre uma das versões de Schumacher.
Eu queria ter escrito sobre Batman Eternamente, mas não deu certo.
Btw, postei esse texto no Ocioso. Se tudo der certo, até amanhã vai pular gente doida aqui querendo me capar.
Uma pena os filmes desse diretor serem os representantes de um suposto “cinema com cérebro” da atualidade, enquanto filmes de Cronenberg e Michael Mann, por exemplo, são totalmente subestimados. Não acho Nolan ruim, pra mim ele tem seus méritos, mas como disse o mestre por trás de Cosmópolis (que teve reações mornas da mesma crítica que acha genial essa bosta de TDKR), quem chama os filmes do Nolan de obras-primas não deve ter noção do que está falando. E ainda tem uma pá de gente comentando “ainda bem que TDKR foi sucesso a ponto de passar o bilhão nas bilheterias mundiais, mostra que o público recente tem alguma esperança afinal”. Pff… Não valorizam mais o cinema de fato imersivo e/ou reflexivo, apenas esse negócio meramente observador, sufocado, distante e de espetáculo vazio que gente como Nolan e Peter Jackson fazem.