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Ao assistir Prometheus, a primeira coisa que veio a minha mente foi uma entrevista de Ridley Scott em 2008 para o L’Express, na época em que divulgava Rede de Mentiras (Body of Lies, 2008). Nela, Scott comenta que a prioridade em seus filmes sempre será a clareza: para Scott pouco importa no que isso interfira na ideia de seu filme, se o espectador não entender cada frame do que se passa na tela, ele falhou em sua missão. É estranho ler isso de alguém que dirigiu Blade Runner – O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982) e Os Duelistas (The Duelists, 1977), mas talvez isso explique porque ao longo dos últimos 30 anos Scott vem feitos alguns dos piores exemplos do cinema comercial americano. Mais do que estranho, é até lamentável ver que um cineasta tem esse tipo de visão tão apodrecida do próprio cinema (ainda mais de um que eu julgo com talento, meio escondido, mas está lá), pois clareza é tudo que eu menos busco quando vou ver um filme.
Esse didatismo no cinema de Scott já foi cobaia entre os diversos gêneros em que o diretor transita, mas na oportunidade de retornar ao gênero em que ele se consagrou (a ficção científica), um fiapo de esperança surgiu acreditando que ele teria algo da obscuridade do já citado Blade Runner, ou que fosse um filme essencialmente cênico como Alien – O Oitavo Passageiro (Alien, 1979). Prometheus não anda bem por aí, também não é tão “claro” quanto outros filmes de Scott. Na verdade, ele é mais uma frustrante investida do cinema de entretenimento em tramas psicanalíticas e discussões protofilosóficas, da qual eu não nego que sempre desconfiei. Acontece em Prometheus, mas poderíamos estar falando de Paul Greengrass, Duncan Jones, Christopher Nolan… Todos são chegados num cinema-covarde, de certa forma: todos nascem já como filmes-menores, afinal são filmes supostamente descerebrados, feitos unicamente para divertir momentaneamente (e a crítica geralmente tem medo de falar mal deles) e quando eles adotam este “algo a mais”, seja lá como forma/conteúdo são aplicados na proposta; automaticamente levam crítica e público a ficarem cegos e deslumbrados por tão pouco diante da obra.
Mas o problema de Prometheus – e dos outros – é não saber lidar com o terreno e que ele mesmo se arriscou. Ridley Scott quer saber sobre nossa origem, pergunta por que querem nos matar, por que estamos aqui, quem é Deus… E para por aí. Tudo que ele supostamente poderia falar sobre a vida se resume a uma sucessão de perguntas autoritárias feitas por seus personagens um tanto mal calculados. O que Scott deseja é na verdade um grande universo carregado de densidade, sem que para isso ele tenha que sair de uma forma automatic pilot, vamos dizer. A sua direção inclusive é totalmente articulada para a “filosofia de butequim” (mesmo que ela, como já disse, em essência, seja em momentos isolados do filme), o que acaba deixando Prometheus parecer ainda mais preguiçoso do que é. Fica aqui a espera para que um dia façam blockbusters como o fantástico Tropas Estelares (Starship Troopers, 1997), onde Paul Verhoeven em pleno domínio narrativo sabia exatamente como equilibrar seu teor político dentro de um filme de estúdio. E olha que Tropas era incasavelmente divertido, cínico e debochado – um verdadeiro desafio a Scott e cia.
Scott embaralha as motivações do filme ocorrer (isto é, a nave Prometheus e os seus integrantes). É possível que em pouco tempo de Prometheus ninguém consiga mais diferenciar as convenções científicas, das religiosas, ou mesmo da metafísica. Afinal, estamos diante de um filme onde a protagonista é cientista, mas acredita em Deus – uma das tantas provas de que Scott está enferrujado -, tudo feito na medida para que Noomi Rapace (tentando bancar a nova Tenente Ripley sem grande sucesso) pareça a heroína perfeita. Scott faz uma ficção científica de terror que tentou discutir sobre religião, mas no fim não parece mais do que um exercício de fé, lotado dos maiores sermões caprianos. Mesmo no terceiro capítulo da saga, o Alien 3 (Alien³, 1992) de David Fincher, este tipo de investida era mais sólida: lá também tocava em feridas religiosas, mas era um duelo imparcial, sem grandes moralismos. O filme do Fincher falhava em outro departamento. A sensação ao fim de Prometheus para tudo que Scott tentou discutir é um imenso “tá, e daí?”. As declarações políticas sobre corporações então, nem devem ser mencionados.
Aliás, Prometheus parece um grande resumo do que se tornou a carreira de Scott: cinema de performance; hipócrita, o autor em posição de gerente de supermercado, impossibilitado de qualquer sutileza, pronto para entregar qualquer-cabeça em qualquer-bandeja para o público (o que me leva a crer que Gladiador (Gladiator, 2000) é o filme mais redundante de todos os tempos). Claro, Scott sabe exatamente como a corda gira: filme conservador numa embalagem de seriedade e desmistificação vai agradar tanto ao ego dele quanto ao do público. Prometheus está longe de ser de todo o mau, visto que o personagem andróide de Michael Fassbender é excelente e foi, até o momento, o ponto alto da carreira do ator; além dos momentos de terror físico, bem distante da grandiosidade hiper-realista hiper-sofisticada e hiper-cansativa do primeiro Alien (que eu gosto) e mais focada no gore, mas a estrutura da qual o filme depende para funcionar é equivocada demais e torna seus diversos bons momentos como algo além do próprio filme (sendo difícil inserí-los até aqui nesse texto, como qualquer um pode perceber).
É uma pena que essa “esperança” (que de verdade, talvez fosse mais uma ilusão) tenha ido pro ar mais uma vez. É uma pena um diretor que um dia foi bom artesão de cenografia não saiba mais diferenciar espetáculo de ilusionismo. Resta saber se pra Ridley Scott, Prometheus foi claro o suficiente quanto ele quer. Mas se não foi, não é problema. Daqui há poucos anos ele está de volta com um novo capítulo da franquia. E nós estaremos esperando numa sala IMAX, numa ilusão de três ou quatro sequências pulsantes. E em 3D, de preferência.
Prometheus, 2012 / Dirigido por Ridley Scott
Com Noomi Rapace, Michael Fassbender, Guy Pearce, Idris Elba, Logan Marshall-Green e Charlize Theron.
Lucas Castro
Blabbedy bloo blah, bloo blabbedy bloo blah
I ain’t hear a word you said, hibitity hoobla!
Retardado.
Bacana o teu texto. Não tive essa percepção, o que me incomodava mesmo eram os erros de cáculo. Ainda assim, achei divertidão.
Pode não parecer, mas eu tb me diverti bastante (inclusive com esses furos). Até cheguei a acreditar que era mesmo bom, mas enfim
Quer perder seu tempo e dinheiro? Va assistir este filme !
Gostei do filme, não concordo com seu texto, acho q filme q não deixa perguntas mostra tudo de uma vez só, perde a graça, assim vc perde a vontade de ver uma sequencia, acredito q em Prometheus fizeram tudo calculado para deixar um gosto de quero mais para o próximo filme. E se prestar atenção em Prometheus ele responde muitas perguntas de alien 8º passageiro e sua sequencia. Talvez vc tenha comenta sobre religião no filme pela parte da corrente de Noomi Rapace, q ela sendo uma cientista e vendo tudo q estava vendo não quis tira-la, pelo que entendi a corrente era o q lembrava o pai dela, foi o q o pai dela deixo pra ela antes de morrer, não tinha nada a ver com religião a corrente.
Bom, se a intenção das perguntas [?] eram essas, ele conseguiu o efeito contrário. E sobre religião ainda, é algo bem evidente sim (a própria personagem faz menção a isso, se bem me lembro). E a tal corrente e os momentos de ênfase nela, só comprovam o quanto o filme é careta quando tenta tratar de temas mais delicados.
não podemos adivinhar o que se passa no plano do diretor, ou seja: “grandes coisas têm pequenos começos”… o brasileiro é imediatista… tudo é pensado em uma superprodução..eles sabem até o tipo de combo da pipoca que você vai comprar…. acredito em uma trilogia sensacional onde tudo se explique e faça um o prazer do outro em cada sequencia… lembrem da trilogia matrix….
Parei de ler quando vi “fantástico Tropas Estelares”…
Então você parou na metade do texto, o que é bom. Além disso, deu mais uma pageview pro blog, o que é ainda melhor.
Um indíviduo quem tem a audácia de falar mal de “Gladiador”, não merece ser levado a sério :/