É inegável que Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath, 1940) e A Patrulha Perdida têm pontos de contato. Levando em consideração que esses dois filmes têm um espaço de seis anos entre si (e notando que A Patrulha Perdida é mais o velho dos dois), é possível dizer que Vinhas da Ira seja uma releitura de Ford do mote de Patrulha Perdida: Um grupo de pessoas que são obrigadas a viver em conjunto passando por situações de extrema dificuldade.
Sim, é fato que John Ford era um mestre em se tratando de filmar grupos de pessoas, como provam vários exemplos em sua carreira. Até mesmo um filme como O Delator (The Informer, 1936), que segue as ações de um único personagem (interpretado por Victor McLaglen, também protagonista de Patrulha Perdida), tem em seu interior um espírito de conjunto, já que a delação feita pelo protagonista Gypo Nolan afeta todo um grupo de pessoas, que são obrigadas a tomar uma decisão drástica decidida em conjunto.
Com isso em mente, A Patrulha Perdida não poderia ser um filme mais john-fordiano. Durante os curtos 70 minutos de projeção, somos apresentados a um grupo de soldados aparentemente normais e que compartilham de forma quase unânime os mesmos gostos e aspirações — e como este é um filme de guerra, já sabemos que eles gostam de falar sobre mulheres, bebidas, armas, tiros e também gostam de brigar. Durante boa parte do filme, apenas duas coisas fazem-nos perder a paciência: Os árabes que se movimentam entre as dunas de forma sorrateira e o soldado Sanders (Boris Karloff, magnífico), que tem uma obsessão quase patológica pela Bíblia.
Uma das coisas mais interessantes do filme é observar justamente a interação entre os soldados. John Ford, a partir de um roteiro escrito por Dudley Nichols (baseado num romance de Philip MacDonald que já havia sido levado às telas na década de 20, estrelado pelo irmão de McLaglen, Cyril), encarrega-se de mostrar de forma quase prosaica as bênçãos e dramas do dia-a-dia da patrulha que vaga sem destino pelo deserto da Mesopotâmia (atual Iraque, curiosamente). Essa trivialidade conferida pelo roteiro e pela direção de John Ford (conquistada através de uma câmera que está quase sempre no nível do olho e com uma decupagem que utiliza um mínimo de cortes) é importante para a apresentação dos personagens porque acaba conferindo um nível de humanismo maior. É quase como se todo o primeiro ato do filme (e parte do segundo, também) fosse uma colagem sucessiva de uma conversa entre grandes amigos (alie isso ao fato — apresentado de forma quase casual — que alguns dos soldados da patrulha servem ao Exército há mais de 20 anos).
E é justamente esta colagem de conversas se sai a melhor parte do filme: Ao humanizar e aproximar os soldados entre si, o espectador acaba invariavelmente por se sentir parte do cotidiano deles. Quando Brown (Reginald Denny) fala sobre as garotas malaias, nós nos sentimos compelidos a rir daquela bobagem e a ficarmos irritados pela neurose de Sanders, que interrompe Brown para dizer que aquilo é uma blasfêmia. Seguindo esta arquitetura, durante muito tempo Dudley Nichols joga informações preciosas da trama ao acaso — o fato de eles estarem perdidos de verdade (a causa disso é de uma irresponsabilidade imperdoável para um soldado profissional, mas absurdamente comum; o que dá mais um toque de genialidade a esta parte do filme).
Entretanto, na metade do filme, Ford e Nichols acabam modificando o tom da trama. À medida que os soldados vão sendo mortos, o filme se obriga a cada vez mais a adotar um tom ligeiro e “objetivo”. Os eventos deixam de fluir com a naturalidade humana e casual e passam a lembrar ao espectador que aquilo é apenas um filme e que há uma linha narrativa a ser seguida; há a nítida impressão de que os tais eventos parecem surgir do acaso. Aliás, a quebra de tom é tão grande que chega a ser surpreendente: Se antes nós éramos apresentados a uma dinâmica amigável e companheira, agora Nichols e Ford parecem obrigar o filme a ser lotado de reviravoltas e atitudes quase irracionais que, como diriam os americanos, come out of the blue (isto é, do nada).
E isso, é claro, é uma pena. Por outro lado, é fato que esta carga ligeira de acontecimentos na segunda metade do filme é uma consequência da aparente falta de objetividade que marcou o a primeira metade da trama. Até então, simplesmente desfrutávamos da companhia dos soldados; eles não pareciam estar ligando para o fato de estarem perdidos no meio do deserto, haviam encontrado algo que não tinham há muito tempo: Paz e água. A excelente fotografia de Harold Wenstrom, graças, em grande parte, a uma notável utilização de luz natural, se encarrega de marcar as diferenças entre o deserto e o oásis onde a patrulha está enclausurada: Observe a massacrante claridade nas sequências fora do oásis (resultado do reflexo de luz na areia) e a enorme sensação de calor que o espectador sente aí. Agora compare isto com a sombra e a sensação (aparente) de paz e frescor dentro do oásis.
Dito isso, A Patrulha Perdida é tecnicamente brilhante. O desenho de vestuário do filme, ainda que sintomaticamente funcional (os ingleses vestem roupas claras; os muçulmanos vestem assustadoras roupas escuras, num clichê furtado do gênero western), se encarrega de passar uma estranha sensação de calor quando os soldados vestem seus uniformes completos, e o desenho de produção do filme utiliza bem as locações escolhidas pelo diretor. Além disso, John Ford exibe mais uma vez maestria ao utilizar, com notável perfeição, a profundidade de foco e seus tradicionais planos gerais (e confesso que me senti surpreso quando, em determinado ponto do filme, ergui a cabeça para observar, junto com os personagens, um incêndio que é visto ao longe).
Só que isso não é suficiente para salvar um filme que está autossabotado. O fato é que A Patrulha Perdida estava caminhando para se tornar um colosso de filme, porque não fazia nenhum tipo de discurso pró ou antibelicista, era simplesmente um filme sobre pessoas. A Patrulha Perdida estava se tornando admirável porque num tempo em que filmes tinham de passar por um moralista código de produção — o Código Hayes —, transformava um personagem é bitolado em Bíblia (e tem a audácia insana de chamar o inferno que os cerca de “o verdadeiro Jardim do Éden”) numa ameaça para todos os que o cercam. Não havia julgamentos até então, mas duma hora para outra, Nichols e Ford transformam A Patrulha Perdida em mais um filme, e não em o filme (mas confesso que, apesar disso, Ford se esforça para nos entregar um bom resultado).
Contando com uma atuação pensada e metódica do gigante Boris Karloff (observe como ele insere um trejeito levemente afeminado em Sanders) e com um final surtado, o espectador de A Patrulha Perdida termina ficando com uma interrogação na cabeça. “E daí?” E daí que apesar de mostrar a dualidade e a indiferença da guerra (porque não interessa se você acredita em Deus ou “no cheiro do bacon”), e apesar de seu tom pessimista, o filme não sabe administrar esta dualidade correspondente. Há duas metades conflitantes e dicotômicas dentro do todo do filme, e assim como você não pode ter várias personalidades diferentes, um filme não pode narrar a mesma coisa de várias formas diferentes.
Ou talvez seja apenas uma questão de dar mute na trilha de Max Steiner.
The Lost Patrol, 1934 / Dirigido por John Ford
Com Victor McLaglen, Boris Karloff, Reginald Denny, Wallace Ford, J.M. Kerrigan, Brandon Hurst, Sammy Stein, Billy Bevan e Paul Hanson
Victor Bruno

Bom texto – muito bem redigido também. Eu gostei bastante do filme na verdade. Considerando que foi feito em 1934, deve-se notar o quão visionário é o filme no ato de humanização dos soldados e o espirito de camaradagem que se cria entre eles – algo que quase todo filme de guerra faria depois (até hoje na verdade). O trabalho técnico é realmente meticuloso e eficaz – toda estética do filme em algum momento corresponde a diferentes emoções (algo focalizado principalmente na composição de planos e iluminação), deliberadamente. O que mais me irritou foi a impressão (intencional ou não) de que os malditos arábes são invisiveis. Os soldados atiram no ar, vêem arabes invisiveis e etc… – parece que faltou figuração hehe… Mas é um bom filme.
A intenção era essa mesma e, pra ser sincero, eu GOSTEI que os árabes não tenham aparecido até o final do filme, porque dá a impressão de morte – especialmente quando você encara aquela roupa preta soturna que eles usam.
Claro que, como eu disse no texto, essa roupa preta é um clichê roubado do western (quem usa chapéu branco é mocinho; quem usa chapéu preto é vilão). Pra todos os efeitos, o maior erro do filme é essa mudança súbita de tom e a permanente indecisão: Afinal, eles vão avançar o plot ou vão ficar interagindo no meio do deserto? E, além disso, todos os turning points do roteiro são funcionais, sintomaticamente aborrecidos. Isso autodestrói o filme – ao lado dos tiros que não vêm de lugar nenhum, apesar de sabermos que haverá um e que alguém morrerá (o que torna aquela subida no coqueiro monumentalmente imbecil) -, o que é uma pena. (Por outro lado, acho que daria 3/5 se o filme terminasse naquele plano das espadas reluzindo ao sol).
Aé, preferiria que o filme acabasse 5 minutos antes.