Faça a Coisa Certa (Spike Lee, 1989)

5/5

Apesar do título imperativo, não é possível dizer, afinal, o que é “a coisa certa”. O coração das ações dos personagens de Faça a Coisa Certa repousam não no momento preciso da ação de captada pelas câmeras de Lee; o filme não foi desenhado para ser um “estudo de personagem”, muito menos um filme de essamble cast: É um retrato do que acontece quando décadas ou séculos de ódio contido e velado finalmente explode.

Para falar a verdade, num primeiro momento, Faça a Coisa Certa — seu princípio, em verdade— dialoga muito mais com um livro de sociologia do que com o cinema. Entretanto, dizer que Spike Lee é simplesmente um homem que faz com seus filmes uma espécie de aparente cinema ativista é não apenas um erro, mas pura preguiça intelectual.

Aluno de Martin Scorsese e colega de classe de Oliver Stone na Universidade de Nova York, Lee faz a cada novo filme (independente ou comercial, que seja) um discurso sobre o valor das minorias no cenário norte americano. Se em Mais e Melhores Blues (Mo’ Better Blues, 1990) Lee fazia apenas um discreto comentário profissional do jovem que vive música num estilo musical essencialmente negro (Denzel Washington é apenas um alter-ego, já que não é difícil traçar uma linha de realidade/ficção aí), Faça a Coisa Certa é um retrato mais amplo de um microcosmo formado por grupos sociais escorraçados, os desiludidos com o American way of life. Eles são, enfim, aqueles que não deram a sorte de nascerem numa área residencial formada por little boxes (a suburbia retratada naquela musiquinha de Malvina Reynolds: “Little boxes, on the hillside, Little boxes made out of ticky-tacky”).

Dito isso, é importante frisar que Spike Lee não investiga as causas do ódio das minorias entre minorias (porque há, e isso é um fato). Ele não investiga porque simplesmente não há nada para ser investigado. Pegando carona na letra de Fight the Power, a música-mote do filme, se você olhar para trás na história estadunidense (e brasileira, obviamente), não verá nada além de 400 anos de um bando de rednecks caipiras chicoteando negros numa plantação de milho ou algodão — e isso fora outras minorias presentes nos guetos explorados por Lee em sua extensa filmografia.

Mas vamos nos ater a Faça a Coisa Certa, somente. Como dito, não há nada para ser investigado aqui, e esse nem é o objetivo do cineasta. Mas, por outro lado, Lee é versado na literatura negra americana: Como ativista (eu ia usar a palavra rebelde, mas isso implicaria dizer que ele é alguém que quer mudar o que é certo), Spike Lee é conhecedor de Malcolm X e Martin Luther King, pessoas que lutaram, dos seus próprios modos, para que os negros também pudessem desfrutar do seu lugar ao sol como cidadãos de primeira classe. Mas mesmo que eles tenham lutado (e morrido por seus ativistas), é claro como o dia que tudo o que aconteceu foi uma jogada para baixo do tapete no fator racismo; o negro americano — mais de meio século depois — ainda tem que lutar com a pobreza, ainda tem que se revoltar (a tal da revolta que Pino [John Turturro] morre de medo). O espírito de luta, infelizmente, esfriou, mas ainda falta aquele dia em que todos se unirão e andarão pelas ruas; e é exatamente nisso que Lee está interessado: No dia da revolta —Rodney King está aí como prova viva e socada que o preconceito nos EUA está apenas jogado para velado, à brasileira — seja politicamente, seja socialmente, seja midiaticamente.

Portanto, Faça a Coisa Certa tem seu palanque aí. Retratando não o dia-a-dia, mas um dia singular na vida de Bed-Stuy (trazida para a cultura pop brasileira graças a Todo Mundo Odeia o Chris). Neste dia — que tem como primeiro fator extraordinário o calor infernal — diferenças e ódios mantidos em segredo durante muito tempo entrarão em estado de fervura incontrolável e explodirão.

Neste ponto, a influência do expressionismo do supracitado Scorsese torna-se fundamentalmente importante no desenrolar do filme. Desde o primeiro fotograma, a rapidez e a urgência do tipicamente scorsesiana se torna visível no estilo de Spike Lee: Observe a cena dos créditos iniciais e trace uma ligação entre o som no cinema de Scorsese e o seu pupilo põe o efeito de um carro em alta velocidade quando a luz por trás da matte paiting ao fundo das dançarinas muda de branco para vermelho.

Dito isso, outro fator fundamentalmente que vale ser notado em Faça a Coisa Certa é a importância das cores. Não apenas fotograficamente falando, é claro (ainda que a bela fotografia de Ernest Dickerson seja brilhante, aproveito para dizer), mas sim em toda construção da mise-en-scene.  Observe, por exemplo, que, salvo escassas exceções, virtualmente todos os personagens do filme optam por vestir roupas de cores claras, como o branco, ou camisas havaianas. Até mesmo Vito (Richard Edson), que usa preto, opta por uma larga camisa regata que mal cobre seu abdome. Portanto, fia óbvio o preciosismo de Spike Lee e sua equipe na construção da carpintaria psicológica e dramática de seus personagens: Ainda no campo do vestuário, veja que cada um dos personagens mantém suas ideologias mesmo em suas vestes: Buggin’ Out[i] (Giancarlo Esposito), que funciona como um “ativista” com um óbvio atraso mental, insiste em carregar penduricalhos com motivos afros misturando com símbolos capitalistas, como Air Jordans da Nike e uma camisa de baseball — e é justamente esse mix de América branca com África que vai acender, a troco de nada, o pavio da bomba que estoura ao final do filme.

Entretanto, mesmo com isso em mente, é importante refletir se Buggin’ Out reclama das fotos penduradas de ítalo-americanos na parede da pizzaria de Sal (Danny Aiello) “a troco de nada” de fato. Como é inteligentemente sublinhado pelo belíssimo desenho de som de Skip Lievsay (colaborador habitual de Lee e dos irmãos Coen) graças às risadas que parecem vir das ditas fotos, Buggin’ Out parece ter um complexo de inferioridade quando se vê frente a frente a um branco: Afinal de contas, qual o motivo dele brigar com o ciclista branco que pisa sem querer nos seus novíssimos Air Jordans? Buggin’ Out, assim como Radio Raheem (interpretado por um intenso Bill Nunn), é movido por um distorcido e perigoso complexo de “espírito de colmeia”. Raheem e Nunn são dois jovens que — cobertos de razão — lutam pela tal coisa certa: Respeito e cidadania. Entretanto, nasceram no momento errado e eram jovens na época incorreta. Em 1989 (“1989, the number another summer”) já não havia mais o espírito de luta que eles insistem em ter. Naquele momento em particular, não havia mais gente disposta a lutar pela aceitação dos negros na sociedade estadunidense, já que o preconceito contra eles havia sido convenientemente jogado para baixo do tapete graças a movimentos como os Panteras Negras e a figuras como os supracitados Malcolm X e Martin Luther King. Raheem e Buggin’ Out são jovens que, é claro, são rebeldes. Mas são rebeldes contra o quê?

Aliás, Radio Raheem surge em Faça a Coisa Certa como uma figura absolutamente emblemática. Ele não tem função aparente durante mais de uma hora e meia, simplesmente indo para lá e para cá escutando seu Fight the Power e comprando briga com qualquer um: Latinos, coreanos (esta cena, em especial, é devastadora) e até mesmo outros negros (observe a presença do jovem Martin Lawrence neste momento).

E é mais curioso ainda que Raheem não escute outra coisa senão Public Enemy. Ele diz que só escuta Fight the Power porque não há nada mais que ele goste, e é muito fácil entender o porquê. A música pede que as pessoas lutem contra o poder; ela pede para que as pessoas vão por aí e façam a coisa certa, seja ela o que for. O Public Enemy quer que as pessoas se revoltem contra o status quo — e de alguma forma, sua mensagem anticonformismo me lembra daquela música do O Rappa, A Paz que Eu Não Quero.

Só que Raheem parece não entender isso. Ele parece compreender que o Public Enemy “o manda” passar por cima de todos os que oferecem um mínimo de obstáculo, o que é um absurdo, já que a música prega exatamente união — seja brother, ou não.

No fim das contas, a mensagem que Faça a Coisa Certa deixa no fim parece um tanto pessimista. Ou talvez não haja mensagem alguma, tentar comprimir a complexidade e os meandros de um filme como esse soa até imbecil; reducionista demais. Tão reducionista que Spike Lee precisa não de uma, mas duas epígrafes diametralmente opostas para concluir sua obra-prima.

E lá estão dois caminhos para a mesma coisa, mas como na matemática, um está certo; o outro não passa de uma série de erros que culmina num acerto. Basta você decidir qual é qual.

Do the Right Thing, 1989 / Dirigido por Spike Lee
Com Spike Lee, Danny Aiello, John Turturro, Bill Nunn, Giancarlo Esposito, Ossie Davis, Ruby Dee, Joie Lee, Martin Lawrence, Rosie Perez, Paul Benjamin, Frankie Faison e Robin Harris

Victor Bruno


[i] Apesar de uma tradução aproximada ser possível (Buggin’ Out = Chatonildo), decidi manter os nomes de personagens com origem em gírias porque acredito que assim é possível manter certa coerência com a essência dos personagens do filme e de suas ideologias.

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