Todo mundo sabe que a luta foi arranjada,
O pobre continua pobre e o rico fica mais rico.
E é assim que as coisas vão,
Todo mundo sabe.
— Leonard Cohen
O ultimo plano que Eduardo Coutinho rodou para seu longa de ficção Cabra Marcado para Morrer — que nunca foi concluído — é bastante simples: Elisabeth Teixeira, interpretando a si mesma, vai até uma janela da sua casinha de taipa ver o que está acontecendo lá fora, porque acabou de escutar um barulho estranho.
Dentro da casa, fora da nossa visão, seu marido João Pedro Teixeira (interpretado por um camponês da Paraíba) está reunido com mais dois companheiros, enquanto discutem a criação de uma Liga Camponesa (que nada mais é do que um sindicato, só que disfarçado).
Elisabeth então volta para casa e avisa para João Pedro: “Tem gente lá fora”.
No exato momento e que Elisabeth, no filme, diz isso, Coutinho e seu montador Eduardo Escorel (de Terra em Transe) cortam para vários camponeses completando a frase interrompida há dezessete anos. Mais do que montar um jogo de filme/realidade, em que estas duas formas de expressão dialogam com uma enorme linha do tempo no meio, o objetivo de Eduardo Coutinho é mostrar como o seu trabalho interrompido pelo Golpe Militar de 64 transformou e afetou a vida de todos aqueles sertanejos miseráveis no meio do Nordeste brasileiro. Sendo um dos documentários mais aclamados do cinema nacional, Cabra Marcado para Morrer não é apenas uma investigação pungente e minuciosa do funcionamento do Sistema (sempre o Sistema, sempre há um) dentro da vida do sertanejo pobre e nordestino. Não, o filme também é uma reconstrução de memórias, que se utiliza — como todo bom documentário, é claro — de documentos, fotos e vídeos, mas também aquilo que mais se preza em qualquer cultura, especialmente uma que é formada por pessoas sem escolaridade: A memória viva e a tradição oral.
Ora, o próprio Eduardo Coutinho tem plena consciência disso. Veja, por exemplo, sua entrevista com João Virgílio, um dos integrantes da equipe do seu longa interrompido em 1964. Ao nos apresentar o sujeito, a voz em off de Coutinho (que ora é interrompida para a leitura de Tite de Lemos ou Ferreira Gullar, já que Coutinho parece ter dislalia) nos informa logo que este é analfabeto e funciona como uma espécie de “memória da tribo”.
Mesmo assim, é importante observar que a falta de instrução de praticamente todos os entrevistados de Coutinho nesta sua revista pessoal (já que Cabra Marcado para Morrer é, mais que tudo, um episódio da sua própria vida) jamais se pesa contra uma curiosa consciência social e política. De fato, a própria história do projeto iniciado pelo cineasta no ano de 64 toma base na história de um camponês semianalfabeto que começou a lutar, sem medo da morte, por condições melhores de trabalho. Como vale observar, antes de ser uma história política, Cabra Marcado para Morrer (e talvez a própria história de todos aqueles moradores do campo) é uma história sobre homem e honra. Veja Virgílio, perto do fim do filme, ao narrar a história da tortura que sofreu logo que as tropas do Governo da Paraíba surgiram em sua residência, atrás do equipamento de filmagem do filme, em 1964. Ele afirma várias vezes que não ia entregar ninguém, e que ia morrer como um homem, com honra. E ele, é claro, não é o único. Aqueles que fazem testemunhos sobre João Pedro Teixeira não hesitam de forma alguma em afirmar que este era um “macho” — não no sentido de ser viril, mas sim agir como um homem, com honra e com princípios.
Princípios estes que Eduardo Coutinho, valendo-se dum poderoso arsenal de arquivos, mostra que o Governo não tinha. Como a montagem de Eduardo Escorel vai para frente e para trás na linha do tempo, não há uma amostragem linear dos fatos — algo que é excelente, porque desta forma o filme escapa do risco de se transformar em algo episódico e chato. Ao contrário, Coutinho e Escorel preferem puxar ganchos na história, e assim narrar os fatos da forma que acham mais adequadas. Portanto, não é apenas uma vez que os mesmos fatos são narrados. Por exemplo, é logo no início do filme que o texto da narração de Coutinho nos informa que esta é a busca pela conclusão de um trabalho deixado pela metade (quase literalmente, já que Coutinho filmou apenas 40% do roteiro, antes das tropas chegarem), mas é apenas com mais de uma hora de filme que nós ficamos sabendo como isso aconteceu, e quais as consequências disso.
E isso é algo bastante interessante, já que Coutinho assim tem mais tempo de mostrar o modus operandi do Governo, que se vale de mentiras, distorções absurdase de terrorismo psicológico para incendiar o medo e a paranoia na população. Mais que ódio ou raiva, eu confesso que fiquei deprimido quando li o artigo de jornal que Coutinho mostra, com a descrição do Governo do que foi encontrado em Galileia, local onde as filmagens estavam sendo realizadas: O jornal diz que um grupo de revolucionários cubanos e comunistas estava realizando um filme chamado “Marcados para Morrer”, instruindo os camponeses a fuzilarem e decapitarem prisioneiros reacionários. (E chega a ser risível que o mais próximo que Coutinho e sua equipe chegaram de qualquer coisa minimamente relacionada a Cuba é um livro, em espanhol, do diretor de fotografia Fernando Duarte, chamado La iluminación cinematográfica).
Mesmo que caia um pouco de rendimento nos seus minutos finais, quando Coutinho faz um rastreamento dos filhos perdidos de Elisabeth Teixeira, Cabra Marcado para Morrer ainda consegue ser um trabalho tocante e profundo sobre uma comunidade que parece ter parado no tempo. Assim como aquelas personagens que conhecemos em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, o épico de Glauber Rocha (que também foi montado por Eduardo Escorel), os camponeses de Canaã e Galileia rejeitam qualquer tipo de imperialismo, optando pelo fruto do trabalho das suas próprias mãos.
Só que Cabra Marcado para Morrer não é tocante apenas por isso. Ele é tocante porque mostra como a pobreza parece perseguir todos aqueles que estão no lado B da luta. É tocante porque mostra como um camponês que mal sabe ler teve o sentimentalismo e a nostalgia de guardar dois livros esquecidos pela equipe de Coutinho (os livros são do supracitado Fernando Duarte, chamado por este de “Fernando ‘Maguim’”), e, nesses livros, encontrar ecos da sua própria história (observe a leitura que ele faz da introdução de Aputt). E é tocante, também, por reservar um lugarzinho especial para a cena da exibição dos filmes recuperados da produção de 1964 — aquilo é o poder do Cinema, reunir pessoas que não se viam há 17 anos pelo simples prazer de ver imagens em movimento; pedaços soltos da própria história.
E enquanto isso, João Pedro Teixeira permanece um mártir esquecido; alguém que só interessará aos novos camponeses que permanecem lutando contra o Sistema (ou para os cinéfilos), porque é preciso que as coisas mudem para que permaneçam as mesmas. Portanto, eles ainda lutarão e lutarão, morrerão e morrerão, lutarão e lutarão…
Cabra Marcado para Morrer, 1985 / Dirigido por Eduardo Coutinho
Victor Bruno
PS: Eu estou sabendo que existe um projeto de restauração de Cabra Marcado para Morrer, ou é algo relacionado a um lançamento em DVD/Blu-ray. Também sei que uma cópia restaurada foi exibida há alguns dias, e que esta exibição contaria com a presença de Eduardo Coutinho — entretanto, Coutinho ficou doente e não pode aparecer. Bom, independente disso, a restauração de Cabra Marcado para Morrer não é apenas essencial: É obrigatória. Assim como eu afirmei em meu texto para Lake of Fire (idem, 2006), de Tony Kaye, devo repetir a afirmação: Este filme é obrigatório para qualquer país que queira se desenvolver — ou que queira ao menos qualquer tipo de igualdade social para seus habitantes. Cabra Marcado para Morrer é um épico que não pode ser perdido. Cabra Marcado para Morrer é um épico que deve ser reverenciado.

Já o engatilhei para assistir aqui, juntamente com Matou a Família e foi Ao Cinema.
alguma notícia da cópia restaurada? se já é possível adquirir, comprar ou baixar?
Joe, até onde eu saiba, a cópia restaurada de Cabra não tá disponível pra home-video e também não foi liberada em circuito comercial. Só foi exibida em ocasiões especiais.
pena.
=\