
5/5
A visão de espetáculo de Michael Cimino em O Ano do Dragão e seus primeiros grandiosos filmes como O Franco Atirador (The Deer Hunter, 1978) talvez hoje nem se encaixe mais na nossa ideia desse mesmo tipo de cinema, devido principalmente a figuras como Michael Bay, que na maioria das vezes se utiliza desse meio para demonstrar o quanto o estúdio que trabalha é rico. E embora ainda hajam diretores que extraem o que podem de suas cenas fantasticamente bem coreografadas para criar um espetáculo puro, é inevitável que a ideia da mesma turma Bay predomine. Cimino, sendo contemporâneo a Steven Spielberg e George Lucas, guardava para si a ideia de que o espetáculo era apenas uma consequência dos elementos primordiais do seu cinema: espaços, corpos, encontros, relações… Pela visão atual – cada dia mais encolhida – é mais fácil descrever seu cinema como humano ou de ação. O que também não deixa de ser uma verdade.
Já sem a mesma confiança dos estúdios, Cimino ainda conseguiu realizar mais alguns filmes grandiosos, de grandes orçamentos, mesmo após o desastre financeiro de O Portal do Paraíso (Heaven’s Gate, 1980), sendo O Ano do Dragão o penúltimo deles. Claro, sem a mesma liberdade de antes, mas ainda assim sendo a apoteose de suas ideias de espetáculo cinematográfico. Suas tomadas eram grandes – em todos os sentidos – e conseguiam ao mesmo tempo serem brutalmente bem calculadas, na medida para criar senso a mise-en-scene. É um cineasta manipulando as suas próprioas escolhas. É uma pena que hoje não tenhamos um outro diretor com as mesmas ideias de Cimino sobre esse espetáculo; até mesmo entre seus “amigos” da década de 70, o único que partilhou com ele a vontade levar as grandes produções ao cinema mais pessimista da Nova Hollywood é Francis Ford Coppola, em O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972) e Apocalypse Now (idem, 1979).
O que vemos aqui em O Ano do Dragão são as ideias de Cimino condensadas em uma estrutura típica de filme policial e que se desenrola da forma mais extraordinária possível. Mickey Rourke dá vida a Frank White, um homem racista, cruel, egoísta, arrogante, violento, mas um homem. Ele chega a Chinatown de Nova York para duelar com as organizações que dominavam o crime, as chamadas “tríades”. White já não faz mais parte da figura do mito idealizado, criado por Cimino em seus 3 primeiros filmes: ele era odiável desde o início da projeção, sem escrúpulos e distante de qualquer relação com um herói. Rourke entra em um diálogo com o personagem de WIlliam Petersen, Richard Chance, em Viver e Morrer em Los Angeles (To Live and Die in L.A., 1985), de William Friedkin – outro cineasta que tentava viver a Nova Hollywood em plena metade da década de 80 – na sua maneira de exprimir no próprio corpo a perda da imagem genuína do mundo.
Cimino, assim como Friedkin e outros diretores do cineastas daquela onda, colocou em O Ano do Dragão a ideia de que o corpo (Rourke) poderia representar o mundo em que habita. No caso do mundo de Rourke, é um lugar essencialmente violento, apodrecido, sem qualquer perspectiva de futuro. A trajetória dele é predestinada a um fim trágico. O corpo-sociedade é decadente. Quanto mais ele caminha, mais podre e menos humano parece. Percebemos isto desde o início do filme, onde num esquema de cortes abruptos observamos o assassinato de um dos chefões do local. A partir deste momento, Cimino adota um tom de dúvida e confusão, alguns dos planos mais cínicos que o cinema já fez estão em O Ano do Dragão. Os personagens não fazem parte do mundo, eles são ele e criam suas características. Assim, Frank White se “aventura” intensamente neste lugar, sabendo que a podridão que está ocorrendo alí reflete em si mesmo.
O roteiro co-assinado por Oliver Stone – provando que só funciona se tiver gente realmente boa para quem trabalhar por trás, como em Scarface (idem, 1983) – deixa claro o controle que Cimino sofria dentro de seu próprio filme. Controle esse que também sofreu em O Siciliano (The Sicilian, 1987) em troca do investimento considerável com que ele tanto gostava de trabalhar, através do produtor Dino de Laurentiis que ditava o tempo e os locais do filme. O que incrivelmente não diminuiu em nada a autoria de Cimino em seus filmes pós-O Portal do Paraíso. Sem oportunidade possível para tocar diretamente em uma ferida como em O Franco Atirador (The Deer Hunter, 1978), ele agora trabalha muito com o diálogo com outros filmes e cineastas (só aqui em O Ano do Dragão, encontramos muito do cinema do já citado William Friedkin, Arthur Penn, Sam Peckimpah e Don Siegel). Mas ainda é, em essência, aquele cara que melhor capta qualquer tipo de sentimento com verdade para modular o quadro.
Year of the Dragon, 1985 / Dirigido por Micael Cimino
Com Mickey Rourke, John Lone, Ariane Koizumi e Raymond J. Barry.
Lucas Castro
olha eu nunca cheguei a ver esse filme na tv brasileira,mas como eu sei que esse filme tem
muita adrenalina seria muito se fosse relançado em dvd pela paragom com audio em portu-
gues e ingles.
Eu digo isso porquê eu adoria muuto ter esse filme na minha coleção
Bem,isso e tudo que eu posso dizer desse grande sucesso do cinema vencedor do oscar.
Mas com a dublagem vai ficar muito melhor.
Claro. Dublado é sempre genial.
Nossa, Luciano… Filmes assim merecem uma representação melhor… A Paragom (mais um selo da Continental dvd – péssima ‘distribuidora’ em home video) é uma porcaria – péssimo tratamento para com seus produtos, e os preços são lá em cima.
Ah, não né? Bom seria se a Fox finalmente o lançasse para blu-ray – ao lado de uma reedição em dvd.