Drive (Nicolas Winding Refn, 2011)

5/5

Nota do editor: Este é o segundo texto de Victor Ramos para DRIVE. O primeiro, que trazia uma opinião negativa, pode ser lido aqui.

Há uma pequena peça no interior de Drive que, independentemente de seu tamanho, modifica o trivial que corre dentro das veias da estrutura do filme que o reveste: transformando em algo diferente o que já foi contado inúmeras vezes pelo gênero Ação, o presente que nos é dado é nada mais nada menos que uma obra-prima construída a partir dos restos mortais de antepassados – ou clichês formados por filmes passados, como preferirem. Esta obra do Nicolas Winding Refn cai bem no contexto da frase “Nada se cria, tudo se Transforma”, provando – mais uma vez – que o que mais importa em um trabalho artístico é a marca do autor, independentemente se os temas abordados já foram dissecados ou não. Mas é aí que reside o sucesso de Drive: é na forma peculiar de sua abordagem que consegue driblar o feijão com arroz.

Convenhamos, feijão com arroz é uma delícia; caso contrário, não seria um dos pratos mais tradicionais do Brasil. Porém, independentemente dos vegetais utilizados para o preparo do prato, o que dá o gosto é o tempero. O tempero é a alma da saborosa comida. Com o cinema (bem como toda arte) não muda. Muitas pessoas se prendem ao conceito falho de que ainda existe a possibilidade de contar histórias originais; mas, como já deixei claro, este conceito é falho. É praticamente impossível o cinema conseguir revelar algo totalmente inédito após pouco mais de cem anos de sua existência; aliás, se olharmos para o passado, época em que a sétima arte ainda era um “embrião”, perceberemos que o que estava sendo filmado era reflexo do que as antecessoras artes deixaram no tempo. A literatura, só para começar, existe desde que o homem se conhece por gente; o mesmo caso ocorre com o teatro, etc.

Com essa visão bruta e desmistificadora, temos finalmente o lado real da moeda: não importa se Drive segue o caminho de tantos outros filmes; a subjetividade do espectador é independente dos “clichês” – palavra banalizada por muitos. Aliás, o que realmente faz com que qualquer espectador se admire por algum filme, é o interior da obra – a alma, ou seja, seu “tempero”. Quando assisti Drive pela primeira vez, minha mente ficara em constante atividade; quer dizer, a obra do Refn se traja de uma forma clássica (que já fora dissecada), mas mesmo assim eu localizei algo de diferente ali. O que será que captei? Um filme tão comum, mas tão diferente?! Reparem bem o paradoxo que certos trabalhos artísticos formam. Na verdade, a ficha somente me caiu quando fiz a revisão do filme, no cinema; foi quando finalmente compreendi o sentido deste filme baladeiro.

Chamei Drive de “filme baladeiro”. A ideia que muitos têm relativamente à “balada” (conhecida em tempos passados como “Discoteca”) é de um lugar altamente iluminado e lotado de gente a dançar, com músicas eletrônicas ao fundo. Qualquer pessoa que tenha assistido a Drive, sabe que ele não é bem um filme agitado. Vulgarmente, é conhecido como um filme de Ação; mas qualquer um que tenha o mínimo de noção, sabe que o referido filme não pertence a gênero algum. Drive é todos e nenhum. Com um estilo nostálgico que nos remete aos anos 80, percebemos que não estamos diante de uma balada, mas sim de uma discoteca. Com um uso refinado da metalinguagem, Refn trabalha o clássico cinema de ação dentro da realidade – não é por acaso que o Motorista (protagonista interpretado brilhantemente por Ryan Cosling) é, dentro da trama, um dublê de filmes, e um dos antagonistas fora produtor de filmes de ação nos anos 80. Com um fio da trama à nossa disposição (ela aqui tem é mais que se danar – o que não é algo necessariamente ruim), o que é tencionado em Drive é o aspecto psicológico da coisa, movido pela narrativa.

O acasalamento entre a direção de fotografia, as expressões dos atores e os planos oriundos das câmeras, dá origem a algo de qualidade quase incomensurável. Drive lembra uma velha discoteca dos anos 80, mas existem muitas diferenças que o fazem um distorcido exemplar do estilo: são poucos os personagens que compõem a “festa”, dando ao evento um tom de tristeza; ao final de tudo, restam apenas as luzes e a música, servindo como peças indispensáveis para o funcionamento do derradeiro resultado. O que mais me deixa abismado é a forma convincente como o lado psicológico dos personagens é tratado; ao decorrer da narrativa, poucos diálogos são abertos; os personagens (sobretudo o protagonista) são seres que vivem presos, solitários, guardando seus sentimentos; há no rosto deles uma incrível força de vontade para desabafar as angústias, as mágoas, as paixões. É por essas e outras que quando o motorista explode seus sentimentos mais internos, ele explode com tudo; isso é reflexo da falta de relação social pelas quais muitos deles, os personagens, sofrem – inclusive o motorista.

A partir do momento que ele conhece Irene e seu filho Benício, uma esperança surge diante de seus olhos; ele finalmente encontra uma família (que, ironicamente, não é dele), um “objeto” para ser amado – importante peça social que lhe aparece, provavelmente pela primeira vez, como uma companhia. Antes disso, o nosso mocinho apenas vivia descompromissadamente em seu trabalho com carros, em uma vida incompleta. Mas, quando por fim sua relação com a linda família vizinha ganha força e os problemas aparecem, de certa forma ele se espelha em seu trabalho – o perigo – para derrubar os obstáculos que se colocam em meio ao seu caminho. Por isso que sempre temos a certeza de que o mocinho é O MOCINHO e o vilão é O VILÃO – o tal mafioso (Albert Brooks em uma bela aparição) que trabalhou produzindo filmes nos anos 80. Tudo soa como se os personagens misturassem a ficção com a realidade – é a partir daí que Refn joga diante das câmeras o cinema clássico dentro da atualidade, fazendo uma quebra de sonho e realidade.

É claro que o “dedo” de Hana-bi – Fogos de Artifício está aqui, bem como o de O Samurai e outros mais, mas a dualidade constante de Drive é, com suas particularidades, singular. Podem reparar que sob muitos aspectos o filme sofre o processo de divisão: na trilha sonora (ora parcialmente alegre, ora triste), nos seres humanos tratados no decorrer da narrativa (a brutalidade dividindo espaço com o lirismo sutil), na própria trama, etc. Em suma, Drive é uma completa antítese. Sendo uma junção de elementos tão complexos, com uns o filme não funcionará. E não o subestimem: Drive é um filme muito reflexivo. O senso comum diz que todo filme deve contar alguma história, apenas; o filme do Refn, por não seguir o senso comum ao pé da letra, pegará alguns desprevenidos e os deixará decepcionados. “Um filme apagado”, alguns dirão. “Não, meu caro. Você simplesmente não soube sentir a mensagem. A partir de certo nível, o único responsável por isso será você”, eu direi em resposta.

Como disse Raymond Chandler certa vez, “Não existem personagens desinteressantes, mas sim mentes desinteressantes”. De acordo com minha interpretação, o que Chandler quis dizer é que, por mais que em uma ficção exista algum personagem com mente fútil, o mesmo ainda pode vir a ser um interessantíssimo objeto de estudos para muitos. Não que eu considere algum elemento – de destaque – de Drive descartável, mas sim que há certos pontos que necessitam de atenção especial. Existe muita palha boa para ser desvendada no filme, e uma revisão com certeza ajudaria. Sendo um jogo de aspecto psicológico, obviamente selecionará seu público.

Provavelmente o filme mais exigente feito em anos. (Não, não me esqueci de A Árvore da Vida.)

Drive, 2011/Dirigido por Nicolas Winding Refn
Com Ryan Gosling, Carey Mulligan, Ron Perlman, Christina Hendricks e Albert Brooks

Victor Ramos

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3 pensamentos sobre “Drive (Nicolas Winding Refn, 2011)

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