Martin Scorsese Bleu de Chanel

Não é novidade alguma que diretores do mainstream são constantemente convidados a dirigirem comerciais de marcas famosas. David Lynch fez para uma marca de perfumes cujo nome esqueci e não vou atrás lembrar, David Fincher fez e faz para a Nike e para a Levi’s (no antigo blog eu mesmo linkei dois comerciais dele). Enfim: É constante.

Mas o caso que eu tenho com comercial do Bleu de Chanel é bastante simples: Eu já tinha visto dezenas de vezes na TV, mas apenas a versão mínima de 15 segundos, que se resumia a dois close-ups e ao astro do comercial dizendo “Eu não serei mais a pessoa que vocês esperam que eu seja,” após ele dar uma olhada numa loira que está assistindo a conferência de imprensa que ele está dando — mas nunca poderia imaginar que aquele comercial tão simples tinha sido dirigido por Martin Scorsese.

Mas mesmo nesse pequeno spot eu vi uma grande qualidade de trabalho. Claro, eu nunca poderia imaginar que tinha o dedo do Scorsese naquilo (apesar de, depois que descobri quem tinha feito, me parecer bem óbvio).

Pois bem, em 15 segundos, o comercial tinha contado uma belíssima história: Um ator premiado que se cansa da vida que leva, encontra uma garota especial e decide mudar a postura — e assinala isso numa frase rebelde. Pra mim dava uma ótima história — que cansei de escutar depois que revi dezenas de vezes.

Mas aí eu descubro, graças ao MUBI: Cara; é Scorsese.

O comercial que eu linkei no início do post é a versão completa, de um minuto. Eu não considero o melhor comercial do mundo (estão na frente desse; o comercial da Johnny Walker com Robert Carlyle, o comercial da Ford Ranger sobre o dia em que o sol não apareceu, e — sim! — o comercial da Folha de S. Paulo em que a câmera se afasta dos pontos de tinta revelando uma figura cavernosa).

Mas divago. O que me impressionou ao terminar de ver essa versão mais longa do comercial do Scorsese não foi a história, uma possível complexidade, etc. Nada disso. Continua sendo uma história bem simples, apesar de novos contornos: Infelizmente essa versão mais longa revela uma trama mais banal: O ator da conferência de imprensa relembra um antigo amor de sua vida e abandona tudo. Mas isso é irrelevante: O que me chamou a atenção foi como Scorsese contou essa história.

Com um mínimo de falas. Na verdade, apenas duas. Ele, um estudioso obsessivo da arte do Cinema, contou em menos de um minuto uma história que se estende por um tempo real considerável da forma mais cinematográfica possível, utilizando apenas o poder da imagem.

Primeiramente, observe a mudança na cor da fotografia do comercial (infelizmente o filme não tem ficha no IMDb, e nem o MUBI nem a Chanel disponibilizaram a ficha técnica completa): O “presente” (a conferência de imprensa) é fotografada com um azul bastante forte, quase hiper-realista. O primeiro flashback (que mostra Hector se aproximando da mulher morena) já tem um azul mais corroído. Observe também o raccord que Scorsese utiliza para transitar fluidamente entre a linha do tempo da história.

Em seguida, Scorsese parte para algo mais lisérgico, mais surtado: Fotografar em 16 mm. Ok, ele usa esse tipo de bitola para mostrar pensamentos mais profundos (observe que a montagem fica ainda mais acelerada nesse momento, acompanhando o ritmo da música dos Stones ao fundo, She Said Yeah); até que finalmente o filme volta ao presente. Mas isso é o mínimo. Ao transitar entre tantos tipos de imagens e mídias captoras diferentes, ele cria algo além de uma narrativa: Ele cria um trabalho de arte, utilizando a concepção da palavra e da mídia cinema em sua forma mais pura.

É complicado de tentar explorar um comercial, mas fica patente que Scorsese nunca filmaria um longa dessa maneira. Ele, assim como outros cineastas, se aproveita da natureza mais despretensiosa da TV e exploram novas linguagens. Observe o incontável número de referências a outros cineastas feitas neste comercial (a mais óbvia é a Antonioni e Blow-Up), mas também se capta Visconti (o design da sala de jantar remete aos castelos de O Leopardo — influência maior de Scorsese no excelente A Época da Inocência —, Rossellini e até mesmo Michael Powell).

Enfim, é um trabalho de metalinguagém brilhante — que infelizmente jamais veremos na tela grande.

Portanto, Deus salve o mundo da moda e da TV.

(Segue o making of do comercial nos vídeos abaixo.)

Victor Bruno

2 pensamentos sobre “Martin Scorsese Bleu de Chanel

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