Haven (Frank E. Flowers, 2004)

2/5

Em um determinado ponto de Haven, surge na tela um letreiro informando-nos que se passaram quatro meses desde a última cena. Ok, legal, não tem por que reclamarmos disso. Nós já aprendemos de muitos filmes, bons e ruins, que às vezes é necessário informarem ao espectador de forma econômica quanto tempo se passou. Acontece que quando esse letreiro surge, Haven já tem quase quarenta minutos de duração e estamos acompanhando uma trama paralela que surgiu há uns dez ou quinze minutos antes, de forma completamente inorgânica e repentina. E mais: O letreiro aparece na tela com a imagem virada de cabeça para baixo.

É um problema colocar a câmera de cabeça para baixo? Como nós aprendemos de alguns filmes anteriores, muitos cineastas já inclinaram — alguns viraram, também — a câmera, e o diretor Frank E. Flowers sabe disso. O que Flowers não sabe é por que estes diretores deixavam a câmera de cabeça para baixo.

Mas há outras coisas que Flowers não sabe fazer. Dentre elas, contar uma história.

Simplesmente não há um contorno para o filme seguir. Flowers, que é diretor e roteirista, cometeu um crime às regras básicas do contista de história. Se o objetivo dele era perturbar a mente do espectador, ele conseguiu: É impressionante a falta de estrutura da história criada pelo cineasta. Flowers abandona uma trama da história para criar uma totalmente nova de uma forma tão displicente que eu cheguei a questionar se ele realmente concluiu o curso de Cinema, ou se pagou para algum professor.

Trata-se de um filme disforme, sem objetivo e incrivelmente mal trabalhado. Tudo em Haven tem um desenvolvimento rasteiro, preguiçoso. Aparentemente, enquanto escrevia o roteiro, Flowers não tinha uma lógica narrativa, ele simplesmente saia escrevendo o que achava conveniente. Sendo assim, Haven parece uma metralhadora que fica rodando e atirando para todos os lados, e termina não acertando ninguém. É só o que explica, por exemplo, personagens como o Patrick (Lee Ingleby) que somem e reaparecem durante a projeção sem a menor explicação (um exemplo que pode ser citado está ao fim do filme, quando ele escorraça a personagem Andrea, de Zoe Saldana, de seu carro e reaparece andando com ela minutos depois). Pior ainda: Esta falta de fluidez na concepção das idéias leva Flowers a inserir personagens no terceiro ato do filme, resultando em ações que não parecem fazer (e não fazem) o menor sentido, e levam o espectador a questionar a validez do filme. Afinal, por que o policial Powell (Jake Weber) faz tanta questão de surrar Fritz (Victor Rasuk)? Nunca o vimos antes, nunca o veremos novamente, mas mesmo assim ele diz coisas como “Estamos de olho em você há muito tempo” e “Se eu vir você andando em um carro que seu nome não está na documentação; vou te matar e jogar você na porra de um pântano”. Eu só pude crer que Powell nutre um forte sentimento paternal para com Fritz.

Dirigindo seu filme sem uma gota de naturalidade, Flowers ainda prova para o público que não tem um mínimo de domínio da linguagem cinematográfica. Não, pelo contrario: Ele pensa que incluir filtros legais na lente da câmera e a mexer para frente e para trás como já é suficiente para dizer que tem um estilo próprio (certamente Flowers aprendeu a fazer esse tipo de coisa na Escola de Cinema do Professor Tony Scott) — e termina que o cineasta não parece estar empenhado em firmar uma linguagem própria, mas sim causar um ataque de labirintite no espectador, como nas duas (não uma, mas duas) cenas com os garotos que ficam pra lá da madrugada andando em círculos com suas bicicletas, enquanto uma personagem fica no meio do pátio.

Falando nisso, é impressionante a quantidade de coincidências que existem em Haven. Não coincidências no tipo “Magnólia” de ser, mas sim no estilo “quero reinventar a roda” de ser personagens que convenientemente testemunham acontecimentos importantes para a trama acontecerem (o personagem de Bill Paxter passar pela rua onde Orlando Bloom trava um tiroteio é inconcebível), ou outras que se cruzam ao acaso no meio da rua, etc. — eventos que só podem ser explicados pela incrível falta de nexo da história de Flowers.

Mas o pior de tudo é que, no final, temos a nítida impressão que Flowers na verdade é uma criança querendo pagar pose de macho — como Quentin Tarantino. E termina que ele acaba caricaturando seus personagens, criando reles estereótipos: Será que todo bandido nas ilhas Cayman é negro, gesticula como um rapper e fala “Yo” ao começar uma frase e “Fuck” ao terminar? E quem dera fosse apenas os bandidos, já que todo mundo em Haven fala palavrão — existindo inclusive uma fala de Stephen Dillane, o Sr. Allen, que se resume a “Fuckin’, fuckin’, fuckin’, fuckin’” ad infinitum. (É tão risível que eu senti vontade de escrever como “Porrando, porrando, porrando, porrando.”)

Felizmente, Frank E. Flowers concluiu o filme seguindo a mesma lógica que usou durante toda a narrativa: Não precisa ter explicação. Mas, entre personagens que sempre acham momentos para filosofarem (Shy [Bloom] apontando uma arma para a cabeça de Hammer [Anthony Mackie] enquanto explica o que é o amor; a senhora Allen [Serena Scott Thomas] falando sobre o cheiro do oceano após ser acordada às duas da manhã) e filhas que sempre repetem o quanto odeiam e ignoram o que papai diz, acho que esse é o menor mal.

Porque nas ilhas Cayman, segundo Haven, toda sexta feira é 13.

E Haven não é um filme; é um episódio estendido e malfeito de Hawaii Five-O.

Haven, 2004 / Dirigido por Frank E. Flowers
Com Orlando Bloom, Zoe Saldana, Mpho Koaho, Agnes Bruckner, Razaaq Adoti, Bill Paxton, Stephen Dillane e Anthony Mackie

Victor Bruno

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