Seis Mulheres Para o Assassino (Mario Bava, 1964)

4/5

Triste saber que as “cores de Almodóvar” (Adriana Calcanhoto as conhece muito bem) são mais comentadas que as cores de Mario Bava. Triste saber que o influente nome do italiano é limitado à fama de “cultuado obscuro”, quando deveria ser tão popular quanto o nome de Hitchcock. Mas o mundo é assim, mergulhado na injustiça; se houvesse justiça, as vertentes fantásticas italianas – e outras mais escondidas – teriam mais espaço nas discussões sobre cinema. Mas como dizem que as grandes mudanças sempre são iniciadas por um número pequeno de pessoas, tento fazer meu trabalho.

Esse senhorzinho chamado Mario Bava foi o responsável pela travessia do cinema italiano na ponte que dividia o noir com o giallo. Se Olhos Diabólicos (La Ragazza Che Sapeva Troppo, 1963) foi a chave para a introdução do giallo no cinema, Seis Mulheres Para o Assassino (Sei donne per l’assassino, 1964) foi a abertura. O estilo italiano nasceu em boa forma, filmado a cores – o primeiro thriller colorido do país – e já revelando partes de uma imagem própria. Ah, como é bom falar de imagem quando o tema em questão é Bava! Seis Mulheres [...] é um filme riquíssimo em detalhes físicos, com mulheres lindas – um prelúdio para a posterior abordagem do erotismo no estilo -, luzes coloridas e outros elementos estéticos que tornam o cinema do italiano tão antológico.

Sua forma surpreende até hoje, mas seu conteúdo nem tanto. Hitchcock não abraçou o “Whodunit” (refere-se a “Quem matou?”) em seus filmes, mas Seis Mulheres [...] é um claro exemplar – em parcela – seguidor do estilo do norte-americano citado há pouco – mesmo fazendo usufruto do “Whodunit”. Sendo assim, a trama do filme – juntamente com sua narrativa – é comum demais aos olhos atuais; é simplesmente uma clássica história policial com um misterioso assassino e a polícia em seu encalço; mas ainda é capaz de encantar: por ser tão simples, tão mesclada, tão clássica e tão estimuladora.

O antagonista já mostra que o filme trilha, por parte, em uma estrada clássica: os crimes têm motivos bastante justos. Sim, o assassino tem motivações para seus crimes; motivações justas – porém antiéticas – que são cabíveis a um perfil psicológico sano (ainda não havia naquele país a ousadia de explorar a loucura como única motivação para a fetichização da violência). Aliás, a teia de personagens é interessantíssima, uma teia antiética que vive em constante suspeita; a pena mesmo é que o elenco não é regido competentemente.

Mas, como de costume, o foco do filme não está na narrativa – ou no elenco. Bava se preocupa mais com o visual; seu domínio das câmeras é iluminador – em todos os aspectos – e se preocupa primeiramente com as cenas mais sofisticadas: as mortes são executadas sob um ritual fílmico de dar inveja. Mario tinha sim o grande dom de saber manipular as imagens como ninguém – a cena em que o assassino corta os pulsos de uma personagem na banheira, fazendo o sangue diluir-se na água, é um momento artisticamente deslumbrante. Sendo assim, a forma completa o conteúdo; a direção de Bava aborda o “Whodunit” clássico sob um método que vive até hoje inimitável.

A música original foi composta por Carlo Rustichelli – incansável compositor que contribuiu com mais de 260 filmes ao longo de sua carreira –, que deu àquele charme vulgar do neon um tom ainda mais boêmio; um lindo acasalamento entre o que pode ser ouvido e o que pode ser visto. A abertura do filme é todo o resumo deste acasalamento original em sua prática, queimando a barreira que fica entre o real e o fictício.

O belo rosto de uma mulher sendo tristemente queimado – obviamente desfigurando-o – em um ferro em brasa, ou o momento em que o assassino dá um violento golpe no rosto de outra mulher, fazendo com que saliências de metal duro penetrem em seu crânio, são momentos que mostram a obsessão de Bava por derrubar todo aquele culto pela beleza fútil que muitos têm. O italiano mata o belo fútil, mas não só o mata… o desfigura também. Seis Mulheres Para o Assassino é um culto ao verdadeiro belo, e faz isso quando busca na arte um alegórico jogo policromático. Um dos mais deliciosos do gênero.

Sei donne per l’assassino, 1964 / Dirigido por Mario Bava
Com Cameron Mitchell, Eva Bartok, Thomas Reiner, Ariana Gorini, Dante DiPaolo, Mary Arden e Franco Ressel

Victor Ramos

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