A Vingança de Jennifer (Meir Zarchi, 1978)

3/5

É muito difícil um filme chegar, tocar o espectador e mudar a vida do dito cujo para sempre. Os homens que assistirem A Vingança de Jennifer (dirigido por Meir Zarchi) terão suas vidas afetadas pelo trauma causado pelo choque visual; já o público feminino redobrará seus cuidados íntimos – também por conta do choque visual. Acontece que não há escapatória para nenhum sexo, pois este filme foi feito para chocar, e mesmo tendo sido feito há mais de 30 anos continua sendo violentíssimo e não recomendado para os mais fracos de estômago. Até mesmo os veteranos dentro deste exploitation mundo do cinema – como eu -, se assistirem, serão afetados. Eu assisti, e fui afetado. Me surpreendi, pois após tantos e tantos anos convivendo com o gore de Lucio Fulci, Dario Argento, Joe D’Amato e Ruggero Deodato, não esperava me chocar com mais um filme violento. Pensei que já tinha visto de tudo nesta vida.

Essa coisa da vingança feminina dentro dos filmes de classe B era comum nos anos 1970, tão comum que até mesmo Bo Arne Vibenius, sueco que contribuíra muito com Ingmar Bergman com seus filmes, dirigiu independentemente o explícito Thriller: A Cruel Picture, de 1974. Por mais que filmes assim sejam repudiados, são bastante influentes. Como A Vingança de Jennifer é de 1978, aproveitou a deixa de Thriller e executou o seu objetivo. Você verá a vingança feminina regada à violência tanto em Thriller quanto em [...] Jennifer; mas suas propostas são distintas: este primeiro ainda tenta brincar de blockbuster, com suas inúmeras ferramentas descomunais para a época – tal como a câmera extremamente lenta que perambula quase todos os momentos do filme -; já este segundo é extremamente com os pés no chão, pois sabe que é um filme B, e trata deste fato com extrema seriedade.

Articulando uma das principais características do exploitation, temos a exploração do sexo. Vários figurões que trabalharam como diretores pegaram o sexo como instrumento para seus prazeres pessoais mais carnais; normalmente o sexo no cinema é simplesmente o sexo: o prazer de realizar tal ato como um animal racional – Thriller: A Cruel Picture demonstra certo prazer ao tratar do tema. Mas A Vingança de Jennifer trata do sexo como uma coisa extremamente podre e mortal; portanto, qualquer espectador que possua alguma expectativa relacionada às fantasias sexuais desencadeadas pelos acontecimentos do filme, pode matar seus desejos logo aí. Caso contrário, será inevitável o sentimento de náusea. É um filme que usa o sexo exatamente para brochar o espectador. A cena em que Jennifer é estuprada por aqueles quatro caipiras é uma prova viva da brutalidade constante do ato humano, que, por si só, já brocha qualquer um.

Estupros à parte, há outras coisas mais perturbadoras no filme, principalmente para o público masculino: os métodos que Jennifer toma para se vingar dos caipiras. A segunda vítima da pobre mulher estuprada sofre um terrível fim (um dos mais temidos por qualquer homem) capaz de tirar a valentia de qualquer um: Jennifer o seduz em uma banheira cheia de espuma, o masturba, lhe dá prazer… no êxtase do prazer, o homem fecha os olhos, e com isso Jennifer continua a masturbá-lo com uma mão, leva a outra à uma faca escondida no pé da banheira, traz a faca ao pênis do homem e o castra; logo após se levanta da banheira, deixa o homem aos seus berros desesperados, tranca a porta do banheiro – com a vítima dentro – e fica, do lado de fora, escutando os desesperados gritos de ameaças e lamentações. Oh, yeah! Uma cena mais que perturbadora… é possível até ouvir o som do pênis sendo cortado com um golpe só. Trilha sonora quase ausente. A cor vermelha – do sangue -, que para muitos representa o conflito, contrastando com o branco – da espuma -, que para muitos representa a solidão. As cores mexem com o psicológico, meu caros leitores.

Se o filme subverteu tudo o que foi feito até aquele momento, chocando a todos, devo dar-lhe meus parabéns. Funciona como um aviso vergonhoso. Após assisti-lo, o público feminino terá receio em colocar sua liberdade em prática no meio de uma terra em que o machismo impera – o próprio Planeta Terra. Aqui as circunstâncias são exploradas; mesmo não aceitando um crime tão brutal quanto o estupro, ainda haverá aqueles que aceitarão as desculpas dos antagonistas. Mas é quase inevitável o espectador se sentir em cima do muro em relação aos personagens do filme. Em um momento é possível sentir pena apenas de Jennifer, já em outro, é possível sentir pena até mesmo dos caipiras.

As coisas acontecem aqui nos momentos certos e com a maior naturalidade do mundo, o que uma obra deste porte necessita. Quando a mocinha encontra os vilões pela primeira vez, a naturalidade assola o momento, sem dar àquela passagem o toque típico que quase todo filme de suspense possui (uma trilha aterradora somada aos olhares desconfiados de todos), e por um segundo você se pega indagando se realmente aqueles homens são maus. O filme não trata ninguém como um ser mau, trata simplesmente como um humano, fruto do meio em que vive. Alguém já se perguntou o porquê daquele brutal crime de abertura? É bom refletir.

Porém, há alguns defeitos que comprometem muito o integral resultado do filme. As duas primeiras vítimas de Jennifer, por exemplo, são atraídas para a morte sob uma forma um tanto ingênua: jogo de seduções. É bastante duvidoso uma mulher conseguir enganar dois homens totalmente testosterônicos sob a mesma forma – matando-os posteriormente. Soa até surreal. Além de tudo, o desfecho é uma pena; acaba do nada, como uma estrela que se extingue. Ficamos sabendo de nada a respeito do futuro de Jennifer, e sobra no ar aquele gosto. Aquele gosto. Gosto. Quero mais. Mas, de todo modo, não foi feito para divertir e não tem a pretensão de criar um clímax. É uma grande placa de aviso: conheça bem o filme que você está para assistir.

I Spit on Your Grave, 1978/Dirigido por Meir Zarchi
Com Camille Keaton, Eron Tabor, Richard Pace, Anthony Nichols e Gunter Kleemann

Victor Ramos

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3 comentários sobre “A Vingança de Jennifer (Meir Zarchi, 1978)

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