Em algum ponto de The Devils você inevitavelmente vai se perguntar: O que, exatamente, estou vendo? Porque The Devils tem de tudo, menos sanidade. Seu diretor é um maluco polemista: Ken Russell. Seu protagonista é um beberrão alcoólatra de marca maior: Oliver Reed. A personagem feminina de maior importância é uma freira surtada sexualmente frustrada, interpretada pela voluptuosa Vanessa Redgrave – fora as bizarrices que já devem ter acontecido quando você se fez essa pergunta. Ou seja: Com todos estes dados coletados durante a trama, se você chegar ao fim e não se surpreender ao menos uma vez em todos os cento dez minutos de trama, aproximadamente, corra para um psicólogo urgentemente.
Dito isso, chega a ser até constrangedor repetir aquele velho clichê formulado para filmes de teor polemista: Este definitivamente não é um filme para todos. The Devils é forte, é chocante, é insano – mas foi criado exatamente para isso – e desde o início ele já dá seu recado: Logo após o letreiro informando que está é uma história real (o que implica dizer que em algum momento da História da Humanidade algo minimamente parecido aconteceu), nós vemos o rei Luís XIII (Graham Armitage) cercado por um cenário que relê o quadro O Nascimento de Vênus – interpretando a própria Vênus.
A cena é ridícula, o rei Luís interpreta um balé tosco, vestindo uma prataria que cobre apenas sua virilha e algo que acreditamos serem seus peitos. E então Russell nos mostra do que a corte francesa do século dezessete é feita: De travestis que circulam livremente ao lado do recatado clero. Na platéia: Cardeal Richelieu (Christopher Logue), líder da Igreja na França – que está lá para fazer média, babar o ovo do rei (como todos os outros presentes, óbvio) e garantir que o status quo francês continue como está. E é ao fim da “peça” do rei, depois das congratulações, que Richelieu solta a fala que define do que The Devils é feito: “Que o Estado e a Igreja seja um só.” Quer dizer: A França é governada por uma bicha louca e por um ambicioso manipulador de nível profissional.
É claro que, com a descrição da peça acima, The Devils soa ser uma história sem sentido e nexo – e realmente faz por merecer essas rotulações. Não o é. Na verdade, é um drama político-religioso embalado numa chocante caixa de doces. Cada frame, cada enquadramento de Ken Russell foi meticulosamente elaborado para que sua verdadeira mensagem esteja oculta. O close no rosto de um religioso protestante morto, decomposto e empalado na entrada de Loudun, onde nossa história acontece, não é gratuito: Ele reflete vagamente o momento de puro caos que o país e a cidade-estado de Loudun vivem.
Mas este choque inicial soa até bobo se nós percebermos que o filme todo é feito para que este sentimento seja extraído do fundo da alma do espectador. A irrealidade da trama é latente e clara: Observe o trabalho de mise-en-scene do filme e perceba que os sets, a distribuição dos objetos de cena e até mesmo o trabalho gestual dos atores são descaradamente caricatos e inumanos. Para Ken Russell, suas personagens não devem ser reais – eles devem ser apenas uma vaga lembrança do que pode vir ser um ser humano. Portanto, cada um dos seus personagens representa a quintessência de uma personalidade humana. Vejamos: O Padre Grandier (Reed) é um populista altamente cínico, um canalha absoluto cuja primeira impressão que o público tem é que este é um sujeito que adora escutar a própria voz (sendo esta a única explicação plausível para seus monólogos constantes). O Rei Luís, por outro lado, já representa um todo: O Estado boçal, a marionete controlada pela Igreja, completamente corrompida pelas suas orgias constantes e pela completa falta de zelo. E até mesmo a pobre Madeleine (Gemma Jones) representa algo: O povo fodido e inocente procurando por algum tipo de saída para sua própria vida desesperançosa – algo que não faltava naqueles tempos, não é verdade? Ela é a inocência. (E estes são apenas alguns exemplos.)
E é claro que Ken Russell não vai se afixar a essa coisa chata aborrecida e infinitamente explorada, a esta constatação óbvia que qualquer mescla de Estado e Religião só pode terminar em merda. Disso todo mundo já sabe (por que é que você acha que o título do filme – “Os Demônios” – aparece em cima dos rostos de Luís e Richelieu?). Não, não: Russell quer resultados, ele quer ver o inferno pegar fogo. Ele quer ver o que acontece quando a lavagem cerebral de dogmas retrógados e da completa incompetência dá errado.
Retratando com uma elegância admirável esta história de demônios possuindo freiras e padres libertinos, é incrível o preciosismo estético-narrativo com que o diretor narra sua história. Como já dito, nada do que estamos vendo é real, é apenas um espelho. Logo, tudo que vemos, mas tudo mesmo; é apenas uma releitura estilizada do que conhecemos como realidade. Veja, por exemplo, o convento das irmãs ursulinas, dirigido pela Irmã Joana (Redgrave): O design de Derek Jarman (que futuramente se converteria num cineasta tão amalucado quanto Ken Russell) só permite que a cor branca apareça no local, tornando-o uma estrutura quase etérea, emocionalmente abstinente – e qualquer objeto que quebre esta lógica visual é imediatamente preto – e sim, os hábitos das freiras são pretos, o que serve de anotação mental para o espectador.
E já que o convento é emocionalmente escasso (diferentemente de quem habita-o) o design do quarto onde o libidinoso Grandier vive é imediatamente inverso: Se não havia quase nenhum objeto decorativo presente em cena no convento, o quarto do padre tem uma presença massiva de decoração: Livros, papéis e até mesmo estátuas gregas nuas, algo que nos remete a natureza sexual da figura (e até mesmo do próprio Oliver Reed). As roupas de Grandier também são desenhadas no estilo mais pomposo possível (créditos a Shirley Russell) – e até mesmo quando ele está sendo julgado por um tribunal da Inquisição, jamais o Padre abandona sua pose populista e seus trajes galanteadores. (E falando em roupas, é interessante notar como o figurino dos juízes apresenta máscaras pontiagudas. A leitura da imagem é clara: Referência óbvia a Ku Klux Klan.)
Infelizmente, é provável que The Devils seja lembrado mesmo pela completa falta de sanidade mental de seu criador e como isso afetou a obra. Porque o que não falta no filme são momentos em que Ken Russell goes wild. The Devils está recheado de momentos em que vemos pedofilia, lesbianismo entre freiras sedentas por sexo, heresia (como na infame cena do “estupro de Cristo,” em que as freiras frustradas sexualmente resolvem se masturbar em cima de um crucifixo) e até mesmo um close num rosto semi-carbonizado vivo. Tudo isso fez com que o filme, claro, inicialmente fosse um sucesso – mas assim que o frenesi passou, The Devils – e o próprio Russell – caíram no completo ostracismo. As pessoas pareceram – e até hoje parecem – não entender que essas cenas não estão espalhadas no filme ao relento, simplesmente por que é mais chocante. Sim, elas servem para chutar cérebros, mas nos mostram que houve um período da história humana em que pessoas foram capazes de condenar uma cidade inteira por poder. OK, até hoje gente poderosa condena outras pessoas por dinheiro e afins, mas no caso em questão, ocorrido em Loudun, no século 17, tudo foi muito explícito, muito profano, desrespeitoso, insano.
E talvez a maior qualidade do filme tenha sido transformar um sujeito cretino como Urbain Grandier em um mártir. É a partir deste momento, só a partir deste momento, que The Devils se transforma num dos maiores libelos pró-liberdade de expressão e liberdade de opinião. Claro, com toda a falta de sanidade de seu diretor, a mensagem fica diluída – mas é para encontrá-la, basta uma mudança de perspectiva. Tudo se resume a isso. Basta sairmos do nosso status quo vegetativo e nos esforçarmos. Qualquer dia desses – talvez em dez anos – a gente consegue. A História é contada em círculos e ciclos.
The Devils, 1971 / Dirigido por Ken Russell
Com Oliver Reed, Vanessa Redgrave, Michael Gothard, Murray Melvin, Dudley Sutton, Gemma Jones, Christopher Logue, Graham Armitage e Georgina Hale
Victor Bruno
![The Devils [widescreen] - ken russell dvdrip.avi_snapshot_01.32.10_[2011.12.04_17.41.34]](http://ornitorrincocinefilo.files.wordpress.com/2011/12/the-devils-widescreen-ken-russell-dvdrip-avi_snapshot_01-32-10_2011-12-04_17-41-34-e1323027863310.jpg?w=652)
Esse é um dos melhores.
Ô se é.
Já já Gothic sairá do forno… logo após vem esse, The evils.
A pior parte é que fica um bocado de assunto acumulado. Tanto que eu quebrei a corrente pra falar mal do Terry Gilliam.