Editorial – 30/12/11

Caros leitores,

That’s all, folks; o ano terminou. E que ano foi esse, hein? Teve de tudo. Você pode até achar que foi um ano ruim, mas a verdade é que todos os anos são iguais. Você ganha coisas, perde coisas, faz mudanças, tem surpresas, você tem momentos bons e momentos ruins.

Fazendo uma retrospectiva, esta é a hora de se perguntar: “O que é que eu ganhei este ano? Quando, no futuro, eu olhar para o ano de 2011, eu vou dizer que aquele foi um ano bom, ou um ano ruim?” Da minha experiência de vida — se é que eu tenho uma —, acredito que nenhum ano é bom ou ruim o suficiente para qualificarmos como ótimo, ou péssimo. A verdade é que dentro das nossas mentes, as coisas se destacam e nos causam euforia — daí dizemos que ano X foi ótimo e ano Y foi uma merda.

E este ano, o que nós ganhamos? 2011 foi uma no bom para o Ornitorrinco Cinéfilo — se eu contar, claro, apenas os nossos êxitos, e eles foram muitos. Você se lembra que no Editorial de um ano do blog eu disse que ainda não tinha dado um rumo ao nosso espaço? Para ser mais preciso, minhas palavras foram: “[Quando criei o blog] não sabia se fazia um blog pessoal ou algo mais jornalístico — e até hoje não sei.”

Pois é, passado esse tempo, agora eu sei. Nós não queremos mais ser os grandiosos, ser o blog sobre Cinema mais acessado do Brasil — muito longe disso. Agora, nosso objetivo é — sem a menor pretensão — falar sobre esta arte tão reveladora, tão colorida, tão sensorial, da forma mais clara possível. Nosso objetivo é muito simples: Queremos que você se sinta tão ligado ao Cinema quanto nós — queremos que você entenda por que Cinema é tão especial.

Claro que não conseguiria fazer isso sozinho, não conseguiria levar meu amor a arte somente com minhas forças, amigos. Portanto, quero agora prestar os mais sinceros agradecimentos aos colegas Heitor Romero e Victor Ramos (o lendário Jerome Tarantino, para quem o conhece do fórum do Cineplayers), aos novatos Lucas Castro e Vini Holanda, que se provaram excelentes redatores (nunca duvidei da capacidade de vocês, calma!) e do velho parceiro Douglas Braga, o dinossauro do blog, que está aqui desde o início, lá nos tempos de Blogspot.

Por fim, é claro, os mais sinceros agradecimentos a vocês, que estão do outro lado desta hopless little screen, como diria Leonard Cohen. É bem verdade que, quando mudamos da plataforma do Blogspot pra cá pro WordPress, perdemos incontáveis leitores. Mas quer saber? Dane-se. Se eles gostassem mesmo do que estávamos fazendo, teriam vindo correndo para cá.

Ou eu posso estar errado, e somos nós que não estamos fazendo serviço direito. Mas dane-se também. A terra gira, a vida continua, e ainda escreveremos sobre cinema, sejamos bons ou não.

E que você tenha um excelente ano de 2012 (ou ao menos que se lembre mais das coisas boas do que das ruins, porque essas também aparecerão — e quanto a isso, nada a fazer; apenas superá-las).

Victor Bruno,
o Editor

Antropophagus (Joe D’Amato, 1980)

3/5

A filmografia de Aristide Massaccesi, mais conhecido pelo pseudônimo Joe D’Amato, se estende em mais de cem filmes. Filmes de quase todos os tipos mesmo: desde o gore mais absurdo até o pornô do mais vagabundo e explícito. Não é surpresa saber que Antropophagus (1980), controverso filme B que ainda rende muito debate, fora assinado com sua direção – entre outros trabalhos mais. Os debates que normalmente cercam Antropophagus são motivados pela onda de polêmica que o envolve; na verdade, é um tanto difícil comprimir as polêmicas que cercam esta obra na forte palavra ‘’onda’’, até mesmo porque a onda já foi quebrada parcialmente com o passar do tempo. A marolinha (vamos chamar assim) que cerca este filme se dá por duas cenas: a de um feto sendo devorado por um canibal insano, e a de uma sessão de auto-canibalismo. Antropophagus quase sempre aparece nessas listas (típicas de internet) dos filmes mais doentios de todos os tempos, mas é com felicidade que afirmo que toda essa polêmica em torno deste é datada: em 1980 a questão do aborto e do canibalismo era mais temida que hoje, portanto podemos, a partir daí, compreender a origem de tanto alarde que se estende até a atualidade.

Este é o típico bom filme ruim. É um filme B com poucas qualidades artísticas, mas possui tanta força nos culhões que consegue seu lugar ao sol; e se surpreendam com o lugar que Antropophagus conquistou: hoje é um clássico Cult. D’Amato construiu aqui uma espécie de slash italiano – isso mesmo. Não é um giallo, é um slash italiano mesmo, e dos brutos. Este filme é um verdadeiro troféu, pois foi feito em um curtíssimo tempo de disponibilidade de seu realizador, que sabia melhor que muitos manusear um orçamento minúsculo em favor aos seus filmes. A cara de clássico já está estampada, todavia muitos tombos são tomados durante a execução. Tudo anda em um fio de trama, mas isso já era de ser esperar. O problema real está na arrastada narrativa, que fala, fala, fala e após tanto discurso, mostra a ação. Uma pena ver Nikos (o canibal, antagonista, interpretado por George Eastman, que trabalhou com Mario Bava em Rabid Dogs), um vilão tão interessante, caindo na fila de espera: ele ronda, ronda e ronda os mocinhos, mas apenas nos 20 minutos finais é que ele finalmente consegue fazer o circo pegar fogo. Continuar lendo

Margin Call – O Dia Antes do Fim (J.C. Chandor, 2011)

5/5

Todo mundo sabe que Wall Street é o centro financeiro do mundo, aí está uma coisa que não é novidade para ninguém. Mas as pessoas, pelo menos até 2008 – e mesmo agora –, não pareciam se lembrar da importância daquele lugar para a sobrevivência da sociedade humana como a conhecemos. Do arroz que você põe no seu prato até o apartamento do multimilionário, o preço disso tudo depende de alguém com um telefone colado ao ouvido das oito até as seis da noite em Wall Street. A importância do lugar é tão primária que, como ressalta o brilhante cineasta J.C. Chandor, roteirista e diretor deste Margin Call, os metidos por dentro da sistemática da economia – no caso, mais precisamente, Jeremy Irons interpretando o inescrupuloso John Tuld – não chamam o lugar de Wall Street, mas simplesmente de “A Rua”. E quando a Rua vai mal, o mundo vai mal. Para se ter uma perspectiva mais ampla, vamos nos lembrar dos nossos tempos de Ensino Fundamental e imaginemos os executivos das empresas saltado dos últimos andares em Nova York no Crash de 29 – que ecoou no mundo durante quase uma década, levou a Alemanha (e dezenas de outras nações) à falência – e, com isso, de quebra, deu margem para que um jovem carismático de um partido trabalhista alemão subisse ao poder – e o carinha se chamava Adolf Hitler. (As conseqüências do que rola em Wall Street beira o altmanesco.)

É neste cenário econômico que os personagens de Margin Call habitam e a história se configura nestes parâmetros. E é bem verdade que J.C. Chandor estruturou seu filme de uma forma que, além de inserir dramaticidade e elementos interessantes ao espectador, sua narrativa se focasse, também, numa espécie de explicação bastante didática sobre o início da recessão econômica que começou lá em 2008 e se estende até agora. De modo bem simples e sem desperdiçar tempo precioso, basicamente o caos do filme (e o real, também) começou por que bancos de investimento (o Lehman Brothers, mais precisamente) precisavam se livrar de ações que valiam pouquíssimo – e, em pouco tempo, o prejuízo dela valeria mais que a capitalização do banco inteiro.

Chandor já mereceria um prêmio pelo simples fato de conseguir converter toda a burocracia e matemática chata da história em algo plausível para o espectador médio – aquele que não entende absolutamente nada sobre a esquemática da economia mundial. É verdade que Chandor é inteligente, e toma a hábil decisão de nunca mostrar – exceto uma vez, apenas – os números que os economistas vêem. Para o jovem cineasta (cujo Margin Call é seu filme de estréia), a câmera tem como função captar as reações das personagens e traduzir isso de forma clara para o espectador – e quando é mostrada, é a personagem de Kevin Spacey, que faz a ponte entre o filme e a nossa realidade, quem vê; e ele imediatamente pede para que “traduzam isso para o inglês.” Portanto, sempre que vemos os personagens de Stanley Tucci, Penn Badgley ou Zachary Quinto olharem para a tela dos computadores e se tremerem de medo, Chandor investe num close captado com a câmera na mão, o que imediatamente se configura na cabeça do espectador como tensão, e os níveis de adrenalina sobem. Logo, não é preciso muito esforço para sabermos que Margin Call é um filme tenso, e que jamais o espectador consegue perder o interesse, mesmo se passando quase em toda sua totalidade dentro de uma sala de contabilidade. Créditos também para a fabulosa montagem de Pete Beaudreau. Continuar lendo

Golpe de Misericórdia (Raoul Walsh, 1949)

4/5

Até um certo tempo atrás, eu tinha uma certa resistência com o gênero western. Acreditava, confesso que por puro desconhecimento, que os filmes conhecidos por nós como “faroestes” eram sempre similares e bobos, sem profundidadade ou complexidade.  Isso começou a mudar quando decidi assistir clássicos de Sergio Leone, John Ford, Fred Zinnemann, dentre outros, que produziram algumas das maiores obras-primas do cinema (Era Uma Vez no Oeste, de Leone, se tornou um de meus filmes favoritos). E foi com um enorme prazer que meu primeiro filmes de um dos diretores mais lendários de Hollywood tenha sido um western: falo de Golpe de Misericórdia (1949), de Raoul Walsh.

Walsh, que começou sua carreira no cinema como assistente de direção em filmes mudos, até começar a dirigir os seus próprios (grande parte deles tratavam de gângsters, além de alguns noirs e westerns), dá claras mostras no filme analisado neste texto do grande diretor que foi. Na trama, o bandido Wes McQuenn (Joel McCrea) escapa da prisão para participar de um último crime: roubo a um trem. Na fuga, ele se torna amigo do humilde Fred Winslow (Henry Hull) e sua filha Julie Ann (Dorothy Malone), por quem Wes passa a nutrir um carinho especial. Entretanto, a gangue com a qual Wes planeja o roubo não é de confiança, e ele começa a suspeitar de que pode ser traído a qualquer momento.

O mais interessante na forma como Walsh conduz o filme, tendo como base um bom roteiro, é que em determinado momento nos vemos realmente torcendo pelo protagonista, nos esquecendo que ele é um bandido  que pretende roubar centenas de milhares de dólares de um trem! Mesmo que Wes McQuenn esteja de certa forma arrependido e planeja que este seja seu último roubo, isso não elimina o fato de que seja um crime. E enquanto acompanhamos as traições de seus “amigos” da gangue e as perseguições orquestradas pelo xerife e seus capangas, nos vemos torcendo para que McQueen consiga sobreviver. Continuar lendo

Quase Famosos (Cameron Crowe, 2000)

1/5

Cameron Crowe tinha 15, 16 anos quando viajou e entrevistou  bandas como The Who, Led Zeppelin, The Eagles numa época onde astros de rock eram tratados como deuses reencarnados na terra. Suas experiências como jornalista musical o levaram a criar esse filme otimista e nostálgico retratando o inicio dos anos 70, nem sempre de uma forma 100% realista com o que aconteceu.

O filme narra a história  de William Miller (baseado em Cameron Crowe) mostrando o momento em que ele “descobre o rock”, o olhar do garoto para um serie de discos de rock é o mesmo olhar de fascinação que temos ao observar algo proibido, ate o momento em que ele é contratado para seguir em tour com uma banda em ascensão. Mentindo sobre a idade William aceita viajar com a banda e depois escrever um artigo sobre ela na famosa revista “Rolling Stone”. Ao longo de sua viagem, William é familiarizado com o mundo de uma banda de rock. Isso inclui brigas e groupies.

O filme é narrado de forma linear, não é um grande marco nas cinebiografias de rock nem possui um conceito ou montagem diferente como o filme de Todd Haynes, Não Estou Lá (I’m Not There, 2007) baseado em Bob Dylan. O filme é  como Crowe  se lembra desse período. Bastante nostálgico, ele relembra suas memórias com saudade, sentindo falta desses tempos. Apesar dele levar em consideração o senso critico do espectador em relação aos eventos retratados no longa, ele opta por encobrir fatos e “maquiar” um pouco como era a vida dos grandes astros de rock setentistas. Continuar lendo

Alice Não Mora Mais Aqui (Martin Scorsese, 1974)

4/5

A dificuldade que se tem em escrever sobre Alice Não Mora Mais Aqui é enorme. Não é um trabalho usual de Scorsese – falar sobre mulheres nunca foi seu forte. Entretanto, isso não torna o filme ruim, longe disso. É o terceiro filme de Scorsese, feito no auge da New Wave Americana, portanto, estamos falando de um cineasta fervilhando inventividade, querendo trabalhar e mostrar ao mundo para quê veio. E já que é Scorsese, que, poucos anos depois, viria se tornar o Martin Scorsese, o trabalho é dobrado.

Seria muito fácil para eu ficar comparando as diferenças e semelhanças entre este filme e os outros filmes do cineasta. Eu poderia ficar dizendo “Ah, Alice tem os mesmos sonhos de Henry Hill”; “Ela é uma outsider social”; “Ela quer ser aceita tal qual Rupert Pupkin em O Rei da Comédia (The King of Comedy, 1982)”, etc. Mas essas coisas estão estampadas na primeira leitura que se faz do filme – e seria perda de tempo para mim e para você listar.

E a verdade é que Alice… é um filme atemporal, fora de qualquer tipo de leitura que se faça da carreira de Scorsese. Tem fundo romântico, mas não o é. Tem fundo de estudo de personagem, mas o filme se foca em um grupo distinto, então já o desqualifica como tal. Então, como ler este filme? É uma tarefa difícil. Scorsese construiu um fascinante filme de camadas.

Sintetizando ao máximo possível, Alice Não Mora Mais Aqui conta a história de uma mulher, a Alice do título (Ellen Burstyn) que, após a morte de seu marido (Billy Green Bush), resolve voltar para a cidade de onde veio, Monterey, na Califórnia, com seu filho, deixando para trás toda sua vidinha de dona-de-casa num subúrbio de uma cidade industrial.

Desde seus primeiros minutos, Alice se configura como um retrato da superação feminina diante de um meio-ambiente claramente machista. Durante toda a projeção, o roteiro escrito por Robert Getchell configura Alice como uma estranha em um mundo novo, que terá de comer o pão que o Diabo amassou em sua nova etapa de vida (que é habilmente pontuada por Scorsese no momento em que escutamos um avião passando por cima da trilha-sonora do filme quando Alice recebe a notícia da morte de seu marido), para, então, ser uma nova mulher.

Só que nem Getchell, nem Scorsese, procuram o melodrama fácil – eles não estão interessados numa pseudo-profundidade e estudo de personagem carregados na dificuldade da vida, porque é óbvio que ela está em apuros. Não, o filme opta por um caminho inteligentíssimo: Quando deixa de se focar no individual – em Alice – e abre seu foco para a relação mãe/filho (afinal, Tommy [Alfred Lutter], é um personagem tão importante para a trama quanto personagem-título, e por vezes é a força motora da estória), o filme nos mostra uma faceta interessante daqueles dois seres – especialmente da mulher –: Ambos mantêm uma relação de amizade, não de distanciamento, entre si. Alice gosta de seu filho, Tommy gosta de sua mãe, e ambos estão juntos na jornada da vida. Entra aqui, agora, um novo aspecto do filme: A familiaridade (ou seria melhor dizer “camaradagem”?). Continuar lendo

A Vingança de Jennifer (Meir Zarchi, 1978)

3/5

É muito difícil um filme chegar, tocar o espectador e mudar a vida do dito cujo para sempre. Os homens que assistirem A Vingança de Jennifer (dirigido por Meir Zarchi) terão suas vidas afetadas pelo trauma causado pelo choque visual; já o público feminino redobrará seus cuidados íntimos – também por conta do choque visual. Acontece que não há escapatória para nenhum sexo, pois este filme foi feito para chocar, e mesmo tendo sido feito há mais de 30 anos continua sendo violentíssimo e não recomendado para os mais fracos de estômago. Até mesmo os veteranos dentro deste exploitation mundo do cinema – como eu -, se assistirem, serão afetados. Eu assisti, e fui afetado. Me surpreendi, pois após tantos e tantos anos convivendo com o gore de Lucio Fulci, Dario Argento, Joe D’Amato e Ruggero Deodato, não esperava me chocar com mais um filme violento. Pensei que já tinha visto de tudo nesta vida.

Essa coisa da vingança feminina dentro dos filmes de classe B era comum nos anos 1970, tão comum que até mesmo Bo Arne Vibenius, sueco que contribuíra muito com Ingmar Bergman com seus filmes, dirigiu independentemente o explícito Thriller: A Cruel Picture, de 1974. Por mais que filmes assim sejam repudiados, são bastante influentes. Como A Vingança de Jennifer é de 1978, aproveitou a deixa de Thriller e executou o seu objetivo. Você verá a vingança feminina regada à violência tanto em Thriller quanto em [...] Jennifer; mas suas propostas são distintas: este primeiro ainda tenta brincar de blockbuster, com suas inúmeras ferramentas descomunais para a época – tal como a câmera extremamente lenta que perambula quase todos os momentos do filme -; já este segundo é extremamente com os pés no chão, pois sabe que é um filme B, e trata deste fato com extrema seriedade.

Articulando uma das principais características do exploitation, temos a exploração do sexo. Vários figurões que trabalharam como diretores pegaram o sexo como instrumento para seus prazeres pessoais mais carnais; normalmente o sexo no cinema é simplesmente o sexo: o prazer de realizar tal ato como um animal racional – Thriller: A Cruel Picture demonstra certo prazer ao tratar do tema. Mas A Vingança de Jennifer trata do sexo como uma coisa extremamente podre e mortal; portanto, qualquer espectador que possua alguma expectativa relacionada às fantasias sexuais desencadeadas pelos acontecimentos do filme, pode matar seus desejos logo aí. Caso contrário, será inevitável o sentimento de náusea. É um filme que usa o sexo exatamente para brochar o espectador. A cena em que Jennifer é estuprada por aqueles quatro caipiras é uma prova viva da brutalidade constante do ato humano, que, por si só, já brocha qualquer um. Continuar lendo

Jane Eyre (Cary Joji Fukunaga, 2011)

4/5

Jane Eyre é um filme bastante interessante. Se tirarmos (juro) A Morta-Viva (I Walked with a Zombie, 1943), de Jacques Tourneur, esta é a décima sexta adaptação do romance de Charlotte Brontë a ser levada às telas de cinema – ao lado de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, este é certamente um dos romances mais adaptados para o Cinema. Então a pergunta que fica solta é: Como trazer algo novo a uma história que já foi recontada tantas e tantas vezes? Talvez uma seja necessária uma nova visão, uma abordagem aproximando-se de um novo ângulo, porque, à primeira vista, Jane Eyre é uma história banal de amor entre uma empregada e seu patrão. Entretanto, com uma nova lente, o romance de Brontë se transforma em algo que os estudiosos de Literatura chamam de Bildungsroman – uma história de auto-formação e maturação.

O que é mais louvável nesta nova versão dirigida por Cary Joji Fukunaga (ele é norte-americano, acredite) é a tentativa de preservação deste aspecto da estória. Temos aqui um interessante – e bem conduzido – drama que consegue equilibrar o elemento mais superficial da história (o romance) e o aspecto mais psicológico (a maturação). Neste aspecto, o Jane Eyre de Fukunaga é fascinante, mesmo que falho.

O filme, inexplicavelmente, começa no velho padrão in media res – ou seja, pelo meio; uma convenção covarde que vem sendo utilizada cada vez mais pela indústria atual. Essa decisão, além de inexplicável, é totalmente absurda e nos faz perder um grande tempo, sendo que Fukunaga e sua montadora, Melanie Ann Oliver, a modelaram para ganhar tempo e ser econômica: Já que estamos começando pela metade da história, o primeiro ato – onde a formação de Eyre é mostrada – é naturalmente comprimido e encapsulado. Isto significa dizer que o principal ingrediente motor da história, sua moral e visão de mundo, são estupidamente suprimidos – e uma vez que estamos falando de um estudo de personagem, qual é o sentido de deixar toda sua formação ética e moral de fora da história? Não faz o menor sentido. Continuar lendo

A surra de Plainview

Grandes Cenas — Sangue Negro

Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007) é um filme muito especial. Não só para mim, mas para todo o Cinema contemporâneo. Durante a última década, poucos filmes se destacaram tanto, a meu ver – especialmente no cinema americano. Seu tempo, sua condução, coerência, a construção cuidadosa de seu roteiro e os rumos que suas personagens tomam. Isso sem contar, é óbvio, com a magistral atuação de Daniel Day-Lewis como o satânico Daniel Plainview.

Em Sangue Negro devem existir dezenas e dezenas de momentos marcantes, e que, portanto, merecem a alcunha de “grandes cenas.” A mais notória, eu suponho, seria a última cena, que apresentou o mundo ao agora lendário bordão “I drink your milkshake!” (que, de tão famoso, já virou cartão desmotivacional e até mesmo camisa). Só que, para mim, aquela não é uma cena tão fantástica assim. É só mais um exemplo do tamanho do talento de Paul Thomas Anderson – tanto no roteiro como na direção – outra passagem onde vemos Day-Lewis engolir o pequeno Paul Dano com sua atuação magistral.

Não, não. Para mim, a maior cena de Sangue Negro é o “batismo” de Plainview – gosto tanto desta cena que não é a primeira vez que escrevo sobre ela. Quem conhece o blog desde seus tempos no defasado Blogspot talvez já tenha visto um post da série “Grandes Cenas” em que transcrevi literalmente esta passagem. Só que naquele post eu me limitei a imitar o que vi o excelente blog Museu do Cinema vinha fazendo há alguns anos: Uma série de posts sobre grandes momentos do Cinema transcritos em forma de textos literários. E qual não foi o tamanho da minha surpresa quando, há dois dias, revistei o arquivo do Museu do Cinema e vi que eles também tinham um texto sobre esta mesmíssima cena de Sangue Negro?

Então, agora, retomo o que iniciei no post Sem elegias para Bob Ford – em que eu explorei o epílogo do também fantástico O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, 2007) – e vou tentar dissecar um pouquinho desta cena de Sangue Negro.

O que nós já sabemos quando a cena do batismo começa? Sabemos que Daniel Plainview é um ambicioso sem limites – ou mesmo escrúpulos –, incapaz de amar seu semelhante, que abandonou seu filho por que a criança ficara surda – e, na maior das ironias andersonescas, convertera-se assim, numa vítima da própria falta de limite de Plainview. Continuar lendo