Em determinado momento de Suspíria, lembrei-me de um comentário que fiz em meu texto para Tenebre (Tenebrae, 1982) – aliás, era a primeira frase do texto. Assim estava escrito: “Assistir a Tenebre é como assistir a um Carnaval.” Em seguida, complementei: “Tenebre é um festival de luz [...], cor e movimento.”
Agora, passados meses desde que vi àquele sanguinário filme de Dario Argento, posso confirmar que aquele estilo carnavalesco de não ficou reprimido apenas a Tenebre. Ele também se estendeu, e parece ser uma constante – e este Suspíria é a quintessência disto. Em praticamente todos os fotogramas do filme, o virtuosismo imagético, a ruptura permanente com a realidade e o atiramento sem medo com destino ao imaginário sanguinolento mais puro é visível – e o que eu escrevi sobre Tenebre e seu “Carnaval” parece boçalidade. O estilo narrativo de Argento naquele filme empalidece perto de Suspíria, porque enquanto o filme de oitenta em dois era uma espécie de reaproximação com o real, construindo um filme mais “sóbrio”, Suspíria (um filme com o chassi setenta e sete) caminha no sentido oposto e se atira no abismo: É forte, frenético e – acima de tudo – colorido.
Suspíria tem cerca de noventa e oito minutos, certo? Deste tempo, eu diria que em setenta por cento do filme eu fiquei com o coração na mão. Apesar de toda a insanidade, de toda a violência, Argento se recusa a tomar o caminho mais fácil. Não há saídas clássicas. A construção da atmosfera aterrorizante e claustrofóbica que toma de conta do filme é impecável – como usualmente acontece em sua carreira. E desde o início fica claro que o filme não dará trégua – e é uma pena que o filme fique só nisso.
Mas comecemos pelo início: Logo na primeira cena do filme, o filme deixa claro que não seguirá uma linearidade, ou mesmo uma lógica visual/narrativa. A presença das cores – que não simbolizam nada além do universo escancaradamente irreal habitado pelas personagens que transitam pelo filme – torna-se patente desde o primeiro fotograma, conforme podemos ver logo na sala de desembarque em que vemos Suzy Bannion (Jessica Harper) nossa heroína, que é iluminada pelo vermelho mais vivo que jamais veremos na vida. E vale dizer que este é apenas um de uma penca de exemplos que eu poderia citar em que as cores de Argento deliberadamente não significam nada – nada além de representar o universo insano que existe dentro de sua cabeça doente.
Só que isso – felizmente – não significa dizer que é um contra dentro do filme. De forma alguma. À bem da verdade, é exatamente isso que torna Suspíria – e seu desvairado criador – um filme absolutamente singular. O coração de todo e qualquer filme de Dario Argento está repousado exatamente na forma, e não no conteúdo. De uma forma ou de outra, consciente ou inconscientemente, Suspíria, Tenebre ou mesmo toda a filmografia do italiano é um belo de um “foda-se” para o conteúdo – e este sim é o erro: A ilusão de que Cinema pode sobreviver com o mínimo de história (mas aí já estou entrando numa discussão além do filme, o que não é meu objetivo) e estruturar tudo no esteticismo.
É por que Suspíria é, no fundo, no fundo, bem no fundo, um filme de Terror absolutamente genérico, que encontra abrigo debaixo das saias do mais batido dos gêneros do Terror: O da mansão-mal-assombrada; ou vai dizer que não é verdade? Atente para a absurda sinopse: Uma bailarina muda-se para a Alemanha estudar dança e descobre que a academia de dança em que toma aulas é, na verdade, um covil de infernais bruxas seculares.
E até essa sinopse é atirada para o alto. De fato, qualquer coisa presente em Suspíria é mera desculpa pra Argento desfilar sua câmera em cenas iluminadas suntuosamente em seus cenários nababescos. O que, é importante citar, dá ao filme um ar meio epilético: Ao mesmo tempo em que temos planos e cenas memoráveis (como quando a câmera se aproxima do arco românico da entrada da Academia, como se estivéssemos indo parar na boca do Inferno), testemunhamos coisas absolutamente estapafúrdias (o deprimente discurso “Temos que matar aquela puta americana”, perto do final do filme). De fato, noventa e nove por cento dos pontos que o filme tem ao seu favor vêm exatamente da sua estética, por que roteiro é simplesmente largado.
De todas as formas, Argento e sua co-roteirista (e então namorada) Daria Nicolodi ainda são capazes de surpreender até o espectador que não tinha a menor esperança em qualquer qualidade vinda do roteiro do filme. Mesmo com furos absurdos na estória (a começar pelo assassinato de abre o filme, perfeitamente dispensável, que só está lá para que Argento, mais uma vez, desfile com seu virtuosismo estético); falta de sentido (a seita de bruxaria é igualmente dispensável); personagens irrelevantes (o menino Albert [Jacopo Mariani]); Argento e Nicolodi são capazes de nos entregar momentos de puro deleite – e até mesmo uma certa tridimensionalização de suas personagens, como no hilário momento em que vemos Olga (Babara Magnolfi) e Sara (Stefania Casini) darem as línguas como forma de insulto – o que uma infantilização providencial para a história, porque sem isso, o espectador (ou eu, ao menos) jamais engoliria personagens vagando com destino certo à morte.
Mas o mais impressionante disso tudo é a forma como Suspíria mexe com o imaginário popular. Bruxas, Inferno, maldade (ou Maldade), gente estranha, a Morte, meninos mórbidos: Nós crescemos com essas figuras folclóricas na cabeça e, dentro de nós, adquirimos medo e aversão a essas pessoas – ou lendas. E é isso que torna Suspíria tão amedrontador. Quando Sara está correndo pelos corredores tingidos de vermelho da Academia, quiçá ela se depare com uma bruxa satânica de pele carbonizada. Ou quando vemos alguém gritar “O Inferno está atrás daquela porta! A morte viva!” – isso é medo. Mais que espanto que qualquer morte que Argento já tenha filmado (até por que seu objetivo não é causar medo: É filmar sangue escorrer, vamos ser sinceros).
E por isso que, quando chega ao final, Suspíria torna-se uma experiência extremamente frustrante. Depois deste final maravilhoso, de gelar a espinha, nos deparamos com o nada. A maior picaretagem que alguém poderia fazer. O final de Suspíria é um coito interrompido, um ponto de interrogação. E de nada vale eu ter dito que Suspíria tem isso, aquilo e aquilo outro. E talvez eu tenha me empolgado demais. Agora, recordando minha sobriedade, chegamos a moral da história: Suspíria poderia ser qualquer coisa, mas ainda assim continuaria nas suas origens de conto de terror bem aprumado, e esta é a verdade. Por mais figuras folclóricas que o habitem.
Mas é como eu disse no início, o Carnaval é que dá a graça. Mas só que ao contrário de todos os Carnavais do mundo, este em particular se leva a sério. Se isso é bom ou não, eu não sei, mas o que sei é que… bom, ponto de interrogação.
Suspiria, 1977 / Dirigido por Dario Argento
Com Jessica Harper, Stefania Casini, Alida Valli, Joan Bennett, Miguel Bosè, Flavio Bucci, Eva Axén, Udo Kier, Rudolf Schündler e a voz de Dario Argento
Victor Bruno

Suspiria é o ápice de Argento como ”estilista”, digamos assim. A trama parece que foi tirada de um conto mesmo, diferente de Tenebre, por exemplo, que tira toda a sua trama de um ”romance” (no sentido figurado) policial.