No Direction Home: Bob Dylan (Martin Scorsese, 2005)

4/5

Há um problema sobre esse tipo de filme, filmes sobre música em geral. Há o risco de você não gostar do estilo/artista que está sendo retratado – por exemplo, por mais que goste de Rolling Stones, para mim é inegável que em Shine a Light (Idem, 2007), deste mesmo Martin Scorsese, a escolha do setlist do filme-concerto é insuportável (se bem que não é só a escolha das músicas que tornam aquele filme um exemplar ruim na carreira de Scorsese, os problemas são bem maiores que isso). É inconcebível, para mim que os Stones tenham trocado músicas como Jigsaw Puzzle por qualquer merda cantada por Christina Aguilera. Por outro lado, The Last Waltz – O Último Concerto de Rock (The Last Waltz, 1978) – também de Scorsese –, é top do Grande Homem.

É que música, tal e qual como Cinema, é um assunto muito pessoal – e o próprio No Direction Home reafirma minha posição. É meio assustador quando vemos hordas de fãs do Bob Dylan gritar nomes como “Judas!” e “Traidor!” pelo simples fato do cantor querer pôr instrumentos elétricos no seu show, tradicionalmente acústico (mas vamos abordar este ponto apenas mais tarde). Como eu ia dizendo, a música, em geral, como qualquer arte popular (incluindo o amado e idolatrado Cinema), só funciona com o indivíduo por que, de alguma forma, ela tocou-o em seu gosto, seu interior. E é óbvio que em grande parte do tempo das longas três horas e vinte e oito minutos de No Direction Home peguei antipatia com o trabalho de Scorsese – eu não gosto de Bob Dylan. Ele sempre me pareceu um cantor aborrecido, chato e desafinado. A meu ver, Dylan funciona melhor como letrista. Só que, como constatei depois do filme, talvez esse seja exatamente o charme dele.

Como nos melhores filmes de Martin Scorsese, No Direction Home é movido por um grande de personalidade forte e impulsiva, ora paranóico, ora lúcido. Não é lá muito difícil descobrir por o diretor de Taxi Driver (Idem, 1976) e Ilha do Medo (Shutter Island, 2010) se interessou em colher centenas e centenas de horas de entrevistas e imagens de arquivo, e dezenas de fotos, sobre o cantor folk (essa denominação é a chave do filme), compilar tudo e transformar em filme. Dylan, não diferentemente de Amsterdam Vallon, Travis Bickle ou Henry Hill (talvez este último seja o que mais se assemelhe à Dylan), é alguém irascível, paranóico, preocupado com si mesmo e tenta sobreviver no mundo tentando encontrar seu lugar.

Desde os primeiros segundos, somos apresentados às várias facetas que o cantor se transverte durante todo o filme – e, mais amplamente, durante sua vida (se o filme se estendesse beeeem mais, veríamos como Dylan se transfigurou de cantor folk para um “evangelizador” cantor de gospel degenerado). Primeiramente, vemos o Dylan do “presente” (na verdade, não tão presente, sua entrevista foi gravada em dois mil, então ele ainda estava entrando nos sessenta anos) comentando, numa voz calma, mas sempre hesitante – um vício que ele sustenta durante todo o filme, o que causa um contraste bastante interessante –, como ainda está procurando o caminho do seu lar. Então o filme corta para a sua bombástica apresentação em Newcastle, Inglaterra, onde o vemos cuspir violentamente a letra de Like a Rolling Stone. A raiva e a frustração que Dylan exala são intensas – e não estou falando apenas da letra da música, que já fala de desolação por si só, mas do próprio cantor. Ele canta “How does it feeeeeeeelllllll… to be on your oooooownnnnn” de forma agressiva, esticando as palavras e berrando-as mais do que faz naturalmente. Como veremos a seguir, ele está num dos eventos mais conflituosos da sua carreira.

 Como No Direction Home é dividido em duas partes, Scorsese e seu montador David Tedeschi (que trabalha exclusivamente em seus documentários) estabelecem duas atmosferas narrativas distintas: Na primeira, o filme aborda algumas aventuras de Dylan, desde a saída do cantor (que, na época, ainda era conhecido como Robert Zimmerman) da sua pequena cidade do Meio-Oeste americano até a chegada no Greenwich Village, em Nova York. Talvez essa seja a parte mais interessante do filme, especialmente se você é um não-fã, como eu. É realmente fantástico “testemunhar” (sim, esse é o sentimento que Scorsese nos provoca com um acervo tão completo de imagens como o de No Direction Home) a formação de um músico tão influente como Dylan. Logo no início do filme, o cantor conta, em entrevista (as entrevistas foram conduzidas não por Scorsese, como usualmente acontece, mas por Michael Borofsky e Jeff Rosen ao longo de quase dez anos), como descobriu a música. Sua descrição é tão fabulesca que você pode até imaginar o jovem Zimmerman se aproximando de um gramofone e vendo “esse disco de setenta e oito rotações tocando uma canção countryDrifting far From the Shore”. Não só pela sua descrição, mas pelos próprios comentários do cantor sobre o efeito da música em si (“Eu senti que estava fora de mim – pensei que talvez tivesse nascido com os pais errados…”).

Infelizmente, ainda nesta primeira parte do filme, Scorsese e Tedeschi aparentemente demonstram certa ânsia de adiantar a história, inserindo clipes da supracitada apresentação em Newcastle (e de outras em seu World Tour de sessenta e cinco, inglesas em geral), em que foi vaiado por tocar com instrumentos elétricos. Já que esta primeira parte é exclusivamente dedicada a mostrar a formação e o desenvolvimento de Bob Dylan, a decisão de quebrar a linha cronológica dos fatos e mostrar imagens que só encontram eco na segunda parte do filme – que é quase inteiramente dedicada a retratar os eventos de sessenta e cinco – mostra-se não apenas apressada, mas totalmente equivocada. Por outro lado, não podemos negar que, de uma maneira genial, Scorsese mostra ao público a evolução de Dylan como cantor através destas mesmas quebras cronológicas: Ele coloca duas versões da mesma música cantada por Dylan, mas em diferentes momentos. As duas se completam, mas a diferença entre os arranjos mostram como Dylan mudou de fase – da acústica para a elétrica.

Ainda sobre a primeira parte, Scorsese mostra como a gênese de Dylan confunde com o nascimento da música folk, e como suas origens – mesmo que ele diga que se “esqueceu” de tudo sobre o lugar de onde veio – têm influência direta em sua formação musical. Muitas vezes, o folk cantado não apenas por Dylan, mas por outros musicistas mostrados no filme, como Peter, Paul & Mary; Joan Baez; Maria Muldaur (que é a primeira minissaia que vemos durante o filme, o que já mostra a mudança dos tempos); confunde-se com o country de Willie Guthrie (que é citado de forma proeminente durante todo o filme) e do próprio Johnny Cash, que, como é mostrado durante o filme. Existem momentos que a única coisa que separa o folk do country é o teor contestador das canções. Não é surpreendente que gente como Lawrence Ferlinghetti – poeta de natureza protestante e agressiva – surja recitando poemas durante o filme.

E é exatamente esta bendita natureza revolta das canções de Bob Dylan que vão engrenar a segunda parte do filme. Por algum motivo, como a própria Joan Baez afirma, as pessoas são magnetizadas por ele de uma forma inexplicável. Como são frisadas diversas vezes durante a projeção, as pessoas vêem nele uma espécie de sacerdote, de porta-voz da geração. E não apenas isso, mas vêem em Dylan uma espécie de “padrinho” da música de raiz. No momento em que ele passa a tocar com instrumentos elétricos, por algum motivo, o seu público imagina que ele traiu seus preceitos. Só que Dylan é músico – e só se trairia se parasse de tocar.

Mas aí é que está o X da questão. Apesar da variação melódica de suas músicas, as letras de Dylan parecem imutáveis durante toda a década coberta por No Direction Home. Independente de Dylan tocar com guitarra e baixo ou só com uma viola e aquela maldita gaita, o filme deixa a (falsa) impressão que o músico não se reinventa de nenhuma forma, dá a entender que Bob é uma pedra permanentemente estática – e seu aborrecimento com o público e com “gente que pergunta” passa a ser perfeitamente compreensível. Observe como a montagem mescla o comportamento ativo de Dylan nos estúdios com seu comportamento irascível, cínico e morto nas coletivas de imprensa.

Mas a segunda parte bate só nisso. Scorsese fica obcecado por retratar a estupidez do público por Dylan não mais cantar acusticamente, e isso acaba tornando esta segunda parte mais entediante – e se levarmos em consideração que ela só serve, basicamente, para complementar o que foi dito durante a primeira parte do filme, sua descartabilidade torna-se ainda mais patente. Por exemplo: É curioso que quando, no início do filme, testemunhamos um espectador inglês do show de Dylan dizer que o cantor “se prostituiu” e “traiu” seu instinto musical quando colocou aquela “banda brega” no fundo – sendo que a “banda brega” conta a presença de gente do calibre de Robbie Robertson, futuro líder do The Band – que, por sua vez, toca o mesmo folk de Dylan, mas com ainda mais raiz (ao contrário de Dylan, o The Band não tinha esse tom crítico social – e ela ganha pontos comigo por isso). (Note que ele ainda tinha a companhia de outros futuros integrantes do The Band, como Rick Danko, Garth Hudson e Richard Manuel – só faltou o baterista Levon Helm para completar a formação –; sem contar que o próprio Dylan contribuiu para a escrita de algumas canções no primeiro álbum do grupo, Music from the Big Pink.)

Além disso, Scorsese trás um presente para os fãs, não apenas de Dylan, mas de música em geral, quando insere breves imagens dos primeiros esboços das músicas do cantor. Você pode notar a insistência de Dylan em encontrar uma forma para si – especialmente no início, quando ainda era altamente influenciado pelo country que escutava quando criança, e por Woody Guthrie. Veja, mesmo que em breves relances, como ele corta o d da palavra old, transformando-a no vocálico ol’, deixando a palavra com um tom bem arcaico – algo que aqueles antigos mineiros do Velho Oeste fariam.

Mesmo assim, depois desta longa viagem, pouco mudou sobre a minha visão sobre Bob Dylan. De certa forma, nada que eu já não soubesse sobre ele foi inserido – maluco, contraditório, profético (a linda sequência com a música A Hard Rain’s a-Coming moldurando as imagens de J.F.K. em Dallas, e a subseqüente morte de seu suposto assassino, Lee Harvey Oswald, é arrepiante). Mas eu penso que este nem era o principal objetivo de No Direction Home. Este grande, enorme, colossal, retrato de Bob Dylan não tem um objetivo didático. Ele é serve para humanizar. Para tirar Dylan do pedestal. Mesmo falhando em alguns momentos, inegavelmente No Direction Home: Bob Dylan mostra o que o cantor sempre foi: Um sujeito inconformado, sem lugar. Sim, sim, ele não tem direção de casa. E, primo, isso é cansativo.

No Direction Home: Bob Dylan, 2005 / Dirigido por Martin Scorsese

Victor Bruno

4 thoughts on “No Direction Home: Bob Dylan (Martin Scorsese, 2005)

  1. Já me falaram tanta coisa negativa sobre esse doc (desde a duração, até que perde vários pontos importantes da carreira do dylan, que se preocupa demais em colocar ele como um humano qualquer, etc, etc) que já tem quase 1 ano que eu tô enrolando pra assitir.

  2. Olá Vitor,
    passando aqui para parabenizá-lo pela entrada na SBBC. Seja muito bem-vindo. O Ornitorrinco Cinéfilo é um dos blogs para avaliação pela qual mais me identifiquei. Parabéns pelos bons textos! =)

    Este de “No Direction Home” é outro exemplo. Sou fã convicto de Bob Dylan e o doc de Scorsese, embora peque pela duração – sim, quem não gosta do cantor e do cenário folk, vai ser uma semi tortura -, é um excelente registro. Tem entrevistas memoráveis e imagens de arquivos que não podem ser perdidas. Agora, diferente deste, e partindo para o “Shine a Light”: sério, eu não vi nada “cinematográfico” ali. Nem chamaria de documentário, é um show, um show registrado com os apurados movimentos de câmera do Scorsese, mas é isso aí. Já “The Last Waltz” se destaca na filmografia do diretor; quem não gosta, não bate bem da cabeça haha.

    Voltarei mais vezes,
    grande abraço!

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