Grandes Cenas — O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford
De tempos em tempos eu revejo O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford. Por algum motivo, gosto da história de fracassados. Só que o Robert Ford não é apenas um fracassado. Ele é o fracassado. Mas além de fracassado, Robert Ford é um incompreendido. O tiro disparado por Ford que matou o Jesse James foi – provavelmente – o disparo mais amargo, emblemático e cheio de carga da História norte-americana. Como o próprio Bob Ford diz, ele sempre foi um nada na vida, o homem esquecido. Matar Jesse James seria sua chance de glória – afinal, ele estaria finalizando com o maior bandido da história do Oeste americano.
Mas como ele viu, o tiro saiu pela culatra (sem trocadilhos). Bob não viu glória. Bob não viu nada. Pelo contrário, ele voltou exatamente para o mesmo estágio de inércia em que se encontrava quando topamos com sua figura, lá no início do filme. As pessoas continuavam lhe desviando o olhar. Se no início do filme, as pessoas se retiravam do lugar quando ele chegava, agora elas lhe mandam mensagens de morte.
É exatamente por esse motivo que acho os últimos três minutos e meio de O Assassinato… tão geniais. É fácil de entender por que a maioria das pessoas considera os últimos minutos deste filme superiores a todos os outros – é por que eles são mais diretos. Ao contrário de toda a frescurada contemplativa que Dominik empregou no resto do filme, aqui ele vai direto ao ponto. Mas eu te garanto: Os últimos minutos não seriam tão espetaculares se não fosse o resto do filme.
Mas não quero criticar todo o filme. Quero apenas me ater esse momento em particular do vídeo acima: Vou tentar explicar por que o epílogo da narrativa é tão especial para mim. Depois do pulo, claro.
Trata-se de uma experiência absolutamente sensorial, O Assassinato de Jesse James é um filme feito para ser sentido e interpretado ao gosto do freguês. Mas como todo filme, e especialmente este que fala mais quando não diz nada, os sentimentos do espectador são manipulados através das imagens e das cores. No caso, estamos falando de um personagem extremamente amargurado, o que justifica a escolha dessa paleta escura – dark mesmo, algo que é bem acentuado quando vemos apenas a silhueta de Ford pela vidraça, aos trinta segundos de vídeo.
Mas, além disso, Bob é um homem arrependido – o que é escancarado pela narração. Veja como grande parte dos movimentos de Bob é lentíssima. Não apenas dele, mas como de Ella May, sua esposa (Zooey Deschanel). Lentos a ponto de confundirmos com slow motion – um óbvio reflexo do peso da sua consciência diante da constatação que lhe custará a vida: Eu matei Jesse James. O tempo passa mais devagar para Ford.
(Neste ponto, observamos que sem a competência de Casey Affleck, o filme não seria tão bom.)
Agora chegamos ao principal: A cena final.
Passo a passo: 1) Observe a quantidade de informação histórica que nos é fornecida. Em trinta segundos, a narração nos diz que Edward O’Kelley não tinha nada, absolutamente nada a ver com a história de James/Ford. Queria apenas vingança. E sabemos que, ao contrário do que aconteceu com o poor ol’ Bob, o povo o apoiou e pediu sua soltura.
2) Veja como o bar que Ford dirige está praticamente vazio, e veja também a quantidade ínfima de mobília que há. É uma cena extremamente minimalista. A tonalidade da cena é de um tom sépia meio evocativo que – se você for comparar – faz um contraste absurdo com a morte de Jesse James. Na cena, o ambiente era extremamente claustrofóbico e angustiante. James sabia que seria morto, e que mesmo se escapasse daquela vez, morreria em alguma outra hora – tanto que, honrosamente, ele se desarma e espera a morte chegar limpando uma foto. Ford, burro, mal sabia que ia ser morto – que torna-se curioso no momento em que percebemos que praticamente todos nesta cena vestem preto, especialmente Ella May. Tudo o que Ford sabia era que o odiavam, mas nunca poderia imaginar que alguém poderia chegar ao ponto de lhe matar (se você pensar bem, sua morte foi gratuita, e satisfez apenas o desejo louco de vingança de O’Kelley).
O resto é todo poético. É a descrição de morte mais realista que alguém pode fazer. Nem me arrisco a trabalhar esses quinze segundos finais: Tentar explorá-los seria inútil, sem sentido, e antiético. Apenas sinta:
“A arma iria disparar. Ella May iria gritar. Mas Robert Ford iria apenas cair no chão e olhar para o teto; a luz esvaindo-se dos seus olhos, antes de encontrar as palavras certas.”
Victor Bruno